O açaí que chega na tigela depende de um trabalho que quase ninguém vê. Um estudo da Embrapa Amazônia Oriental com a UFRA e a UFPA, publicado na revista Neotropical Entomology, mostrou que as abelhas nativas respondem por mais de 90% da polinização do açaizeiro. Só as abelhas sem ferrão ficam com cerca de 60% desse trabalho, e as abelhas solitárias com outros 35%.

Mais de 70 insetos visitam a flor, mas poucos fazem o serviço
A pesquisa, liderada pela agrônoma Leilane Bezerra (UFRA) com a bióloga Márcia Maués, da Embrapa Amazônia Oriental, Alistair Campbell e Cristiano Menezes, da Embrapa Meio Ambiente, acompanhou oito áreas em Barcarena e Abaetetuba, no Pará. Quatro eram de açaí manejado em várzea e quatro de plantio em terra firme. Mais de 70 espécies de insetos foram vistas carregando pólen de açaí, entre moscas, vespas, formigas e besouros.
O detalhe que muda tudo é a quantidade de pólen. Em média, cada inseto levava só dois grãos, e um quarto deles não levava nenhum. As abelhas nativas carregavam pelo menos oito vezes mais que os outros visitantes, e algumas abelhas solitárias chegaram a levar cinco mil grãos de uma vez. Quatro espécies se destacaram: as solitárias Augochloropsis e Dialictus, e as sem ferrão Trigona branneri, a arapuá, e Trigona pallens, conhecida como olho-de-vidro.

O produtor que colocou caixas de abelha e colheu 30% a mais
Na prática, o resultado já aparece no campo. Fernando Miranda, que cultiva 12 hectares de açaí em Santa Bárbara do Pará, recebeu colônias de abelhas sem ferrão da Embrapa depois de um treinamento em 2017 e contou ter visto um aumento de cerca de 30% na produção de frutos, com cachos mais cheios e mais rendimento de polpa. É um relato de um produtor, não um ensaio controlado, mas bate com o que os pesquisadores esperavam ver.
A recomendação dos autores vai em duas frentes. Colocar colmeias de abelhas nativas nos açaizais, principalmente onde o entorno já foi desmatado, e manter floresta perto do plantio, porque é ali que vivem os polinizadores silvestres. Menezes chega a defender áreas menores de açaí cercadas de mata, que rendem mais por touceira do que plantios enormes sem floresta em volta.

Uma conta que passa de bilhões
Em 2018, segundo o IBGE, o Pará produziu 1,4 milhão de toneladas de açaí em cerca de 200 mil hectares, um negócio de uns R$ 3 bilhões na economia do estado. Márcia Maués estima que a polinização feita por animais movimenta R$ 43 bilhões por ano na agricultura brasileira. Quando a maior parte desse serviço depende de abelhas que ninguém cria nem contabiliza, fica claro por que a meliponicultura deixou de ser hobby de quintal e virou assunto de produtividade. Vale um aviso dos próprios pesquisadores: as Trigona são agressivas e difíceis de manejar, então o caminho para o produtor costuma passar por outras espécies de abelha sem ferrão mais fáceis de criar em caixa.