Desde que a Basilisk chegou ao Brasil, há décadas, ela praticamente monopolizou o nicho de Brachiaria decumbens nas pastagens brasileiras. Ninguém lançava uma concorrente direta. Isso mudou com a BRS Carinás, cultivar híbrida desenvolvida pela Embrapa em parceria com a Unipasto, descrita pelo Boletim Técnico 176, de março de 2026, como a primeira cultivar de B. decumbens lançada no mercado além da própria Basilisk.

Quinze anos de trabalho atrás de um nome bonito
O cruzamento que deu origem à BRS Carinás aconteceu em 2011, cruzando uma B. decumbens tetraploidizada com colchicina com a cultivar Basilisk, seguido de retrocruzamento com a própria Basilisk. A avaliação da progênie começou em 2012, o registro saiu em 2024 e a proteção em 2025. Por trás do lançamento estão 21 pesquisadores e técnicos de cinco unidades, Embrapa Gado de Corte, Embrapa Cerrados, Embrapa Gado de Leite, Embrapa Amazônia Oriental e a Universidade Estadual de Maringá, com Sanzio Carvalho Lima Barrios como primeiro autor.
Os números que importam para quem forma pastagem
Em três anos de avaliação em Planaltina, no Distrito Federal, a BRS Carinás produziu em média 16,2 toneladas de matéria seca por hectare ao ano. Isso é 18% mais que a Basilisk, que ficou em 13,7 toneladas, e 11% mais que a BRS Paiaguás, com 14,6 toneladas.
- Na época das águas, a BRS Carinás rendeu 18% mais forragem total que a Basilisk, com 31% mais folhas e 14% mais colmo.
- Na seca, acumulou 28% mais material vivo que a BRS Paiaguás e 20% mais que a Basilisk.
- Como pastagem diferida para a seca, guardou 2,5 toneladas de matéria seca por hectare, 40% mais que a Basilisk, embora ainda menos que a BRS Paiaguás, com 3,5 toneladas.

E o boi engorda mesmo mais rápido?
Em avaliação feita em Planaltina entre 2023 e 2024, o ganho de peso diário por cabeça na BRS Carinás ficou parecido com o da Basilisk, 748 contra 703 gramas por dia na época das águas. A diferença real apareceu na taxa de ocupação: 2,8 unidades animais por hectare contra 2,5, resultando em 285 kg de ganho por hectare contra 245 kg. A produção de carcaça estimada foi de 13,3 arrobas por hectare ao ano, cerca de 12% acima da Basilisk, que ficou em 11,9 arrobas.
Em outras palavras, o animal individual não engorda muito mais rápido, mas a área sustenta mais gado, e isso se traduz em mais arroba produzida por hectare no fim do ano.
Resistência a doenças e onde ela ainda perde
A BRS Carinás é altamente resistente ao mosaico (JGMV), superando a Basilisk nesse quesito, e também resistente a manchas foliares causadas por Bipolaris, além de imune à ferrugem (Puccinia levis). O ponto fraco é a cigarrinha-das-pastagens: a cultivar é classificada como suscetível tanto à Notozulia entreriana quanto à Deois flavopicta, no mesmo nível da Basilisk, e sem resistência à cigarrinha do género Mahanarva, diferente da maioria das cultivares de Brachiaria, com exceção da BRS Ipyporã.

Onde plantar e quanto de semente usar
A recomendação oficial é o bioma Cerrado, com potencial também para outros biomas brasileiros e para a América Latina. A cultivar se adapta a solos ácidos e de fertilidade baixa a média, tolera baixo teor de fósforo e responde bem à adubação fosfatada, com exigências parecidas com as da Basilisk e menores que as de B. brizantha e Panicum maximum. Para quem for semear, a taxa recomendada é de 4 a 6 kg de semente pura viável por hectare, profundidade de 3 a 6 cm, visando um estande de 30 a 50 plantas por metro quadrado.
Também vale para integração lavoura-pecuária: semeada junto com milho a 4 kg de semente pura viável por hectare, a BRS Carinás não reduziu a produtividade de grão nem de silagem, e ainda rendeu 80% mais forragem de safrinha que a B. ruziziensis, com rebrota cerca de 60% mais rápida.