Coelho Brasileiro Chega às Ilhas Marshall, mas Falta no Mercado Interno

Tem um detalhe curioso na cunicultura brasileira que poucas pessoas notam: o coelho criado no Paraná tem mais chance de parar num prato nas Ilhas Marshall do que na mesa de um restaurante em Curitiba. Parece exagero, mas os números batem.

Coelho em gaiola de granja comercial de cunicultura

O Brasil exporta coelho para lugares que a maioria de nós nunca visitou

Segundo dados da Agrostat Brasil, as exportações nacionais de carne de coelho somaram 14.892 kg em 2025, gerando US$ 33.343 em receita. O salto em relação a 2024 foi de 145,5% em volume e 157,2% em valor, um crescimento e tanto para um nicho que normalmente passa despercebido nas estatísticas do agro.

O que chama atenção é o destino dessa carne. As empresas exportadoras estão sediadas na Bahia, no Pará e no Maranhão, e os compradores incluem Ilhas Marshall, Libéria, Singapura, Panamá e Noruega. Nenhum gigante do consumo de coelho ali, pelo menos não os óbvios como França, Itália ou Espanha, onde o hábito de comer coelho é antigo e consolidado.

Enquanto isso, no Paraná, a produção recua

O Paraná é historicamente um dos polos de cunicultura do país, com destaque para Foz do Iguaçu, Francisco Beltrão e Dois Vizinhos. Mas o Boletim Conjuntural do Deral, divulgado em 19 de março de 2026, mostra uma produção em queda: o estado foi de 27.181 animais e 183.198 kg de carne produzida em 2023 para 24.170 animais e 145.660 kg em 2024. A receita bruta também caiu, de R$ 2,241 milhões para R$ 1,815 milhão no mesmo período.

Para colocar em perspectiva histórica, o Censo Agropecuário de 2006 já registrava 54.208 coelhos só no Paraná. Em 2017, segundo o IBGE, o número despencou para 23.625 animais distribuídos em 2.040 estabelecimentos. É uma atividade que nunca deslanchou de verdade no Brasil, apesar de décadas de tentativas.

Coelho marrom sobre palha em criação rural

O próprio texto do Deral admite o problema

O boletim que acompanha os dados é direto: a produção paranaense “mal dá para atender o mercado interno”. Ou seja, o Brasil manda coelho para o Panamá e para a Noruega enquanto o consumidor daqui tem dificuldade de achar carne de coelho fresca no açougue do bairro. Isso não é só uma curiosidade estatística, é um sinal de que a cadeia produtiva ainda não encontrou escala.

  • Produção concentrada em poucos municípios, o que deixa a oferta frágil a qualquer oscilação local.
  • Falta de um mercado consumidor consolidado, já que no Brasil o coelho nunca brigou de igual para igual com frango, boi ou porco no hábito alimentar.
  • Exportação pontual, voltada a nichos específicos, que não necessariamente reflete uma cadeia produtiva robusta internamente.

A carne em si tem argumentos a favor

Do ponto de vista nutricional, a carne de coelho carrega números interessantes: cerca de 28% de proteína e 10,2% de gordura, valores que o próprio setor usa para defender a carne como mais magra e energética que frango, boi e porco. O problema nunca foi o produto, foi construir uma cadeia de distribuição e um hábito de consumo que sustentem produção em escala.

Coelho em ambiente de criação zootécnica

O que isso diz sobre a cunicultura brasileira

Dá para comemorar o crescimento de 145% nas exportações, mas sem perder de vista a escala real: 14,9 toneladas exportadas é pouquíssimo para um país do tamanho do Brasil. O avanço percentual impressiona porque a base de comparação é pequena, não porque existe uma indústria pujante por trás. Se a cunicultura brasileira quiser crescer de fato, o caminho passa por resolver primeiro o próprio mercado interno, não só mirar comprador estrangeiro.

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