O Ceará concentra 54% de toda a produção nacional de camarão, dentro de um Nordeste que responde por 99% da carcinicultura brasileira, segundo a Associação Nacional da Cadeia Produtiva do Camarão (Camarão BR). Rio Grande do Norte vem em seguida com 27%, Piauí com 12% e Paraíba com 6%. É justamente essa posição de liderança que está no centro de uma preocupação levantada por produtores cearenses: o risco sanitário de uma possível entrada maior de camarão equatoriano no mercado brasileiro.

O que os produtores estão dizendo
Segundo relatos de produtores ouvidos em ato recente, entre eles Cristiano Maia, descrito como o maior criador de camarão do país, o Equador vive um cenário de superprodução, com oferta maior que a demanda depois que Estados Unidos e México passaram a restringir o produto equatoriano. Para os produtores, o excedente estaria sendo direcionado ao mercado brasileiro, numa importação que o governo mantém sob pressão da Organização Mundial do Comércio (OMC).
A Federação da Agricultura do Ceará (Faec), presidida por Amílcar Silveira, e a Associação dos Produtores de Camarão do Ceará (APCC), presidida por Luiz Paulo Sampaio, têm cobrado atenção redobrada das autoridades sanitárias para essa movimentação. É importante destacar que essas alegações sobre superprodução equatoriana e desvio de excedente partem dos próprios produtores e de suas entidades de classe, e não foram verificadas de forma independente por órgãos sanitários no material disponível até o momento.

Por que a mancha branca assusta tanto
O temor central dos produtores nordestinos é a entrada de doenças que, segundo eles, não circulam no Brasil, entre elas a mancha branca, um dos vírus mais destrutivos da carcinicultura mundial. Cristiano Maia afirma ter enfrentado e controlado a mancha branca em sua própria fazenda, a Potiporã, em Touros (RN). Para isso, a propriedade ampliou e modernizou seu laboratório e contratou um cientista australiano, que passou três anos treinando a equipe local. As pós-larvas produzidas hoje pela Potiporã, vendidas a fazendas de todo o Nordeste, são descritas pelo produtor como imunes à doença há alguns anos, com o laboratório preparado para reagir rapidamente a um eventual novo surto.
Segundo Maia, erradicar uma doença como essa de um plantel leva em torno de seis gerações de camarões, o que dá uma ideia do tempo e do investimento necessários quando um patógeno desses entra numa região produtora.

Uma cadeia que depende de poucos estados
Com 99% da produção nacional concentrada em apenas quatro estados do Nordeste, a carcinicultura brasileira tem uma vulnerabilidade estrutural: um problema sanitário sério numa única região compromete boa parte da oferta do país de uma só vez. É esse risco concentrado que explica por que entidades como a Faec e a APCC tratam a questão da importação não como disputa comercial comum, mas como ameaça direta à sanidade de toda a cadeia produtiva nordestina.
Keivia Dias, superintendente de Pesca da Codevasf no Ceará, também acompanhou as discussões sobre o tema, num indicativo de que o debate já chegou a órgãos federais ligados ao desenvolvimento da aquicultura regional.