Pintainho recém-chegado ao aviário parece sentir frio até em dia de verão no interior de São Paulo. Frango quase pronto pro abate, do mesmo lote, já sofre com qualquer tarde mais quente. Não é exagero nem capricho de criador: são duas aves em fases completamente diferentes, com exigência de temperatura que muda semana a semana, e quem maneja o aviário sem respeitar essa curva paga a conta na balança.
Primeira semana pede quase 31°C, não os 20°C do final do ciclo
A tese de doutorado de Déborah Cunha Cassuce, defendida na Universidade Federal de Viçosa (UFV) em 2011, testou frangos da linhagem Cobb em cinco câmaras climáticas do AMBIAGRO, o laboratório de ambiência agrícola do DEA/UFV. O resultado, depois de cruzar desempenho com temperatura por regressão, foi uma curva bem definida: a faixa de conforto na primeira semana de vida fica em torno de 31,3°C, cai para algo entre 26,3°C e 27,1°C na segunda semana, e chega a 22,5°C a 23,2°C na terceira.

Ou seja: nas primeiras três semanas, o pintainho ainda precisa de calor parecido com o de uma chocadeira, só que indo embora pouco a pouco. É bem diferente da temperatura de 20°C que a Phodé Animal Care, empresa francesa de nutrição e saúde animal, aponta como ideal perto do fim do ciclo, quando o frango já está pesado e perde calor com muito mais dificuldade.
Por que o frango adulto sofre tanto quando passa dos 28°C
Jean François Gabarrou, gerente científico da Phodé, descreve um experimento clássico de estresse térmico: um grupo de aves ficou em temperatura termoneutra, por volta de 22°C, outro em calor crônico, perto de 32°C, e um terceiro comeu a mesma quantidade restrita do grupo com calor, mas em ambiente confortável. A conclusão incomodou quem acha que o problema é só a ave não comer o suficiente: a redução no consumo de ração explica mais de 60% da perda de desempenho, o resto vem direto do calor em si, que empurra o metabolismo para depositar mais gordura e menos proteína, aumenta radicais livres e citocinas inflamatórias no sangue, e em aves mais pesadas pode causar morte súbita por uma leve hipertermia que o corpo não consegue dissipar.

Acima de 28°C, segundo a mesma fonte, o conforto da ave já cai independente do equipamento disponível no galpão. Densidade menor de aves por metro quadrado permite tolerar 2°C a 4°C acima do limite, ventilação dinâmica estende essa margem para 4°C a 6°C, e nebulização evaporativa, o resfriamento adiabático que molha o ar antes de ele entrar no galpão, pode abrir até 8°C de respiro, desde que a umidade relativa não esteja alta o bastante para anular o efeito.
E a galinha poedeira, que passa a vida inteira no mesmo aviário?
Para poedeiras, a referência da Phodé é mais baixa ainda: cerca de 17°C. Faz sentido se pensarmos na rotina da ave, que não cresce rápido como o frango de corte, mas mantém um gasto energético constante com a formação do ovo todos os dias, inclusive da casca de carbonato de cálcio, um processo que também é sensível ao calor. Diferente do frango, que sai do aviário em 35 a 45 dias, a poedeira acumula meses de exposição ao mesmo ambiente, e qualquer desconforto térmico persistente tende a aparecer na queda de qualidade do ovo antes de aparecer em qualquer outro número da planilha do produtor.

O que isso muda na prática, dentro do galpão
- Ajustar a meta de temperatura por idade do lote, não por uma média fixa do ciclo inteiro, já que a diferença entre a semana 1 e a semana 3 passa de 8°C segundo a tese da UFV.
- Reduzir a densidade de aves por metro quadrado em dias de previsão de calor extremo, ganhando de 2°C a 4°C de margem sem gastar nada em equipamento.
- Priorizar ventilação dinâmica bem dimensionada antes de pensar em nebulização, já que molhar o ar só compensa quando a umidade relativa já está baixa.
- Observar o consumo de ração hora a hora em dias quentes: a queda no meio da tarde, quando a temperatura sobe, costuma ser o primeiro sinal de estresse térmico, bem antes de qualquer sintoma visível na ave.
Nenhuma dessas medidas substitui o acompanhamento técnico de um zootecnista ou médico veterinário que conheça o lote e a estrutura do galpão. Mas entender que a temperatura ideal do frango de corte e da poedeira muda ao longo da vida do lote, e não é um número único gravado na cabeça do avicultor, já evita boa parte das perdas que aparecem na conta de ração e na balança no fim do mês.