CONFINAMENTO DE VACAS LEITEIRAS – HIGIENE NAS INSTALAÇÕES

Ao confinar vacas leiteiras, o alto investimento em instalações almeja o maior conforto e bem-estar de rebanhos de grande potencial produtivo. Tanto a maior densidade de animais quanto o grau de sangue predominantemente holandês são algumas das características que exigem intenso monitoramento e controle da condição sanitária. Neste processo, o planejamento das características construtivas das diversas instalações é complexo e tem papel de destaque para a manutenção do equilíbrio do sistema.

 Observa-se nos países onde há maior volume de leite produzido, que o sistema predominante já é o de confinamento total (PASSETI et al., 2016). No Brasil, em levantamento recente realizado pelo site Milkpoint, especializado no setor leiteiro nacional, verificou-se que dentre os 100 maiores produtores no levantamento de 2020, o confinamento total é realidade em cerca de 70 %, com tendência de aumento. Isso é coerente com o fato de que o número de fazendas com sistemas intensivos baseados no uso de pastagens apresentou declínio em relação aos levantamentos anteriores.

Assim, a produção nacional de leite em sistemas intensivos parece se encaminhar para o maior uso de confinamentos totais, de modo que, com um mercado reconhecidamente mais exigente em qualidade e quantidade, estudos que aperfeiçoam as práticas de dimensionamento, construção e manejo específicas do confinamento são cada vez mais necessários.

Neste contexto, os aspectos construtivos das instalações merecem especial atenção, principalmente devido sua relação com a manutenção da boa higiene, tendo em vista que em confinamentos, a maior parte da vida produtiva das vacas se concentra dentro das instalações (ZURBRIGG et al., 2005).

 O planejamento do design das instalações deve considerar simultaneamente as características do animal e as práticas de criação que serão utilizadas, sendo os principais benefícios o aumento da saúde, conforto e higiene. É desejável também que as instalações otimizem o trabalho dos funcionários ao oferecer conforto e segurança, com ênfase para as operações relacionadas a alimentação e limpeza, que, juntamente a locomoção para a sala de ordenha, compõem a maior parte da rotina diária (ZURBRIGG et al., 2005).

Aspectos gerais da higiene em diferentes instalações

Pode ser um desafio estabelecer um elevado padrão de higiene em confinamentos, visto que há outras prioridades paralelas aos aspectos sanitários e que devem ser igualmente atendidas, tais como o controle de custos com equipamentos e o tempo despendido pelos funcionários com limpeza e monitorament, em detrimento de outras demandas do dia a dia. Contudo, o equilíbrio entre estes fatores deve ser um objetivo constante, e os ganhos em qualidade e produtividade normalmente compensam o investimento (RUSHEN, 2017).

Dentre as principais características em contraste aos demais sistemas intensivos de produção de leite, no confinamento, os animais passam a maior parte do tempo em galpões, que priorizam o alcance simultâneo de conforto e funcionalidade, com vistas na maior produtividade e saúde dos animais, muito diferente do que ocorre em sistemas de uso intensivo de pastagens, em que as vacas ficam mais suscetíveis as adversidades climáticas (ROTTA et al., 2010).

Os sistemas de confinamento mais utilizados podem ser agrupados entre tie-stall, free-stall e loose-housing. A principal diferença entre os dois primeiros, é que no free-stall a vaca está livre para alternar entre a área de alimentação e as baias para descanso coletivo. No loose-housing, destaca-se a simplicidade em relação aos sistemas supracitados.

A área de descanso coletivo, marca do loose-housing, visa principalmente minimizar a incidência direta de radiação solar, chuvas fortes e ventos sobre os animais, sendo que os cuidados com higiene consistem em remoção de dejetos e reposição de material seco a fim de compor a cama de descanso coletivo (MOTA et al., 2017).

Uma alternativa ao loose-housing tradicional, o Compost Barn foca no manejo diferenciado do material da cama a partir do controle da degradação microbiana desta. O revolvimento diário e adição de matéria orgânica (dejetos e reposição da cama) são as principais práticas nesse sentido. Geralmente são usados subprodutos da madeira, como raspas e serragem, mas também restos culturais finamente moídos, tais como palha de milho e de trigo. Estes substratos, juntamente com as fezes e urina, sob condição aeróbica exotérmica, formam uma compostagem que é caracterizada por normalmente estar seca e com reduzida população de microrganismos patogênicos (DAMASCENO et al., 2012).

Já no free-stall e tie-stall, caracterizados pela presença de baias individuais, a grande “sacada” é o correto dimensionamento destas baias, de modo que o comprimento seja suficiente para alojar úbere e pernas, sem espaço para permitir acúmulo de dejetos nas camas. Nestes sistemas, as vacas descansam deitadas lado a lado sob camas, teoricamente sempre secas e livres de dejetos, sendo que a ordenha ocorre em local separado. Para adequada ventilação, conforto térmico e dispersão de gases, o pé-direito da instalação deve possuir pelo menos 3 metros (PEREIRA et al., 2010). Em instalações localizadas em países onde o frio é um desafio, o galpão recebe paredes e a dispersão de gases ocorre por meio de exautores e ventiladores.

Mattos (1977), discutindo sobre as práticas de limpeza das instalações em confinamento com baias individuais, recomenda que a remoção de fezes das camas e das canaletas deve ser diária em função da redução da necessidade de renovação do material da cama, o gera economia e mantém a saúde das vacas. Não existem modelos prontos quanto ao dimensionamento das instalações, é imprescindível a adequação de cada recomendação técnica com a realidade e os objetivos de cada propriedade (financeiramente e em nível de adoção de novas tecnologias).

Espero ter esclarecido a importância de instalações bem construídas e dimensionadas. No entanto, os ganhos que boas instalações possam trazer serão desperdiçados quando na rotina não é feito o básico: a limpeza com a frequência adequada, o monitoramento minucioso do rebanho e uma equipe não proativa frente aos problemas encontrados. Assim, o desequilíbrio da condição de higiene é favorecido, com a ocorrência de doenças e anormalidades produtivas sendo os primeiros sinais que anunciam o prejuízo.

Vídeos recomendados:

Compost Barn x Free Stall

Veja como funciona o sistema Compost Barn

Tie-stall

REFERÊNCIAS

DAMASCENO,  F.  A.  2012.  Compost bedded pack barns system and computational simulation of airflow through naturally ventilated reduced model.  Curso de Pós-Graduação em Engenharia Agrícola. Universidade Federal de Viçosa, Viçosa, Minas Gerais.

MATTOS, W. R. S. Sistemas de estabulação livre para bovinos. Simpósio sobre pecuária leiteira, 1, p.123-139, 1977.

MOTA, V. C., CAMPOS, A. T., DAMASCENO, F. A. Confinamento para bovinos leiteiros: Histórico e características.  PUBVET. v.11, n.5, p.433-442, Maringá, 2017.

PASSETTI, R. A. C.; EIRAS, C. E.; GOMES, L. C.; SANTOS, J. F. & PRADO. Intensive dairy farming systems from Holland and Brazil: SWOT analyse comparison. Acta Scientiarum: Animal Sciences, 38, 439-446, 2016.

PEREIRA, E. S.; PIMENTEL, P. G.; QUEIROZ, A. C. & MIZUBUTI, I. Y. Novilhas leiteiras. Graphiti Gráfica e Editora Ltda. Fortaleza, 2010.

ROTTA, P. P.; PRADO, R. M.; MOREIRA, F. B. & PRADO. Suplementação do perído do verão. I. ed. Produção de bovinos de corte e qualidade da carne. Eduem, Maringá, 2010.

RUSHEN J. Housing and the welfare of dairy cattle. Vol 3. Cambridge: Burleigh Dodds Science Publishing, 2017.

ZURBRIGG, K.; KELTON, D.; ANDERSON, N. & MILLMAN S. Tie-Stall Design and its Relationship to Lameness, Injury, and Cleanliness on 317 Ontario Dairy Farms. Journal of Dairy Science, v.88, n.9, 2005.

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