Verminose em ovinos é provavelmente a doença que mais tira produtividade do rebanho sem que o criador perceba na hora. Não é um surto dramático que aparece de uma vez, é uma queda lenta no ganho de peso e na produção que vai se acumulando, e quando o problema fica visível, principalmente em cordeiros e em raças menos adaptadas ao clima tropical, a mortalidade pode já estar alta. A pesquisadora Simone Niciura, da Embrapa Pecuária Sudeste, em São Carlos (SP), resume o ponto central do problema de um jeito direto: só vermífugo não resolve, porque o uso frequente e mal orientado do remédio é exatamente o que cria resistência parasitária no rebanho.

Por que vermifugar tudo, sempre, é a receita errada
A lógica parece contraintuitiva para quem está acostumado a tratar o rebanho inteiro ao primeiro sinal de problema, mas é justamente essa prática que acelera a resistência. Cada vez que um vermífugo é aplicado, os parasitas mais sensíveis morrem e os mais resistentes sobrevivem e se reproduzem, repassando essa resistência para a próxima geração de vermes. Fazer isso com o rebanho inteiro, inclusive nos animais que não precisam de tratamento, só multiplica a pressão de seleção a favor dos parasitas resistentes.
A alternativa recomendada pela Embrapa é a vermifugação seletiva: tratar apenas os animais que realmente precisam, identificando-os individualmente e controlando quais já receberam vermífugo e quando. Isso exige mais trabalho de observação do rebanho do que simplesmente passar o remédio em todo mundo no mesmo dia, mas é o que preserva a eficácia dos produtos disponíveis a médio e longo prazo. Outro detalhe que parece pequeno mas pesa bastante: a dose certa, calculada pelo peso real do animal (idealmente pesado numa balança na propriedade, não estimado visualmente) e seguindo a bula à risca, também atrasa a resistência.
O papel do manejo de pasto no controle da verminose
Segundo a pesquisadora, o manejo da pastagem é tão importante quanto o remédio em si. Roçar o pasto expõe as larvas de vermes ao sol e ao calor, o que reduz sua sobrevivência. Aumentar o intervalo de descanso de uma área antes de voltar a colocar os ovinos nela dá tempo para que a contaminação natural caia. E rotacionar o uso daquela pastagem com outra espécie animal, bovinos por exemplo, antes de trazer os ovinos de volta, quebra o ciclo do parasita, porque a maioria dos vermes de ovinos não se desenvolve em outras espécies.

Genética e nutrição também entram na conta
- Selecionar e manter na propriedade os animais que naturalmente resistem melhor à verminose, descartando os mais sensíveis ao longo das gerações.
- Priorizar raças já reconhecidas por maior resistência parasitária quando for repor o plantel.
- Garantir nutrição adequada por categoria animal, porque ovinos mal nutridos respondem pior à carga parasitária e adoecem com cargas de vermes que um animal bem alimentado toleraria.
Nenhuma dessas quatro frentes funciona isolada. Um criador que investe em genética resistente mas continua vermifugando o rebanho inteiro sem necessidade, ou que faz vermifugação seletiva mas deixa os ovinos no mesmo piquete o ano inteiro, perde boa parte do ganho que teria. A combinação de seleção genética, manejo de pastagem, nutrição e vermifugação seletiva é o que realmente estende a vida útil dos vermífugos que ainda funcionam no rebanho.

Vale lembrar que o rebanho de ovinos no Brasil tem crescido mais rápido que o de caprinos nos últimos anos, segundo o levantamento sobre o rebanho de ovinos e caprinos, o que torna o controle sanitário ainda mais relevante para quem está expandindo o plantel agora. A produção de lã também sofre direto quando a verminose não é controlada, como mostra a produção de lã ovina no Rio Grande do Sul, e quem está pensando em diversificar o rebanho com uma raça diferente pode conferir o perfil da raça Berganês.
Fonte: Embrapa Pecuária Sudeste.