O Brasil abateu mais de 511 mil javalis até agosto de 2025, segundo levantamento feito a partir do Sistema de Monitoramento da Fauna (Simaf), operado pelo Ibama. Parece muito, mas pode ser só a ponta do problema: o setor estima que a população atual já passe de 1,25 milhão de animais soltos pelo país.

Uma praga espalhada por mais de dois mil municípios
Essa estimativa de 1,25 milhão vem de Rafael Salerno, presidente da associação Aqui Tem Javali, em entrevista ao Compre Rural, e não é um censo oficial do Ibama, do Mapa ou da Embrapa. Mas dá para ter uma ideia do tamanho do problema pelos números que existem: a Embrapa já detectou a espécie em 1.152 municípios, e os registros de abate aparecem em mais de 2 mil municípios no sistema do Ibama.
Em Mato Grosso do Sul, um boletim técnico da Embrapa Pantanal cita produtores de Rio Brilhante relatando perda de até 30% em algumas lavouras por causa dos javalis. Em Santa Catarina, a Procuradoria-Geral do Estado (PGE-SC), com dados do IMA, da Cidasc, da Embrapa e do Ibama, afirma que o animal já está presente em 60% dos municípios catarinenses. A lei estadual que autoriza o controle populacional, a Lei 18.817/2023, está sendo questionada no Supremo Tribunal Federal pela ADI 7808.

O estrago vai muito além da lavoura
A lista de culturas atacadas inclui milho, soja, trigo, arroz, sorgo, hortaliças, mandioca e cana, além de dano direto a cercas, pastagens e nascentes. Os javalis ainda competem por espaço com espécies nativas e atacam animais menores, e quem sente mais o golpe no bolso é o pequeno produtor, que já trabalha com margem curta.
- Mais de 511 mil javalis abatidos no Brasil até agosto de 2025, via Simaf/Ibama
- Estimativa do setor aponta 1,25 milhão de animais no território nacional
- Espécie já detectada pela Embrapa em 1.152 municípios
- Em Santa Catarina, presença confirmada em 60% dos municípios do estado

O risco sanitário que mais preocupa
Aqui está o ponto que devia preocupar todo suinocultor, não só quem lida com lavoura ou pasto: javali e porco doméstico são a mesma espécie, Sus scrofa, o que significa que um pode infectar o outro. A Embrapa trata o problema dentro do conceito de “Saúde Única” (One Health), e o Mapa já inclui os suínos ferais no seu plano de vigilância sanitária, monitorando doenças como peste suína clássica, peste suína africana e PRRS.
A Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA/WOAH) descreve a peste suína africana como uma doença com mortalidade que pode chegar a 100% entre os porcos infectados, embora não represente risco à saúde humana. O impacto, nesse caso, é todo econômico: perda total do plantel, embargo de exportação, prejuízo que se arrasta por anos. Com mais de um milhão de javalis circulando livremente perto de granjas e pequenas criações, a vigilância sanitária brasileira não pode se dar ao luxo de tratar o problema como “coisa do campo”.