Embrapa Usa CRISPR em Bovinos e Já Tem Bezerros Tolerantes ao Calor

Se tem uma coisa que todo pecuarista sabe na pele (literalmente) é que calor em excesso derruba produção. Gado estressado come menos, ganha menos peso, produz menos leite. E com o verão brasileiro cada vez mais hostil, pesquisadores da Embrapa decidiram atacar o problema direto na raiz genética do animal.

Vaca em pasto verde, tema de pesquisa em reprodução bovina no Brasil

No SimFertCorte, simpósio realizado em outubro de 2026 e divulgado pela Agência Gov, o pesquisador Luís Sérgio Camargo, da Embrapa Gado de Leite, em Minas Gerais, apresentou um resultado que parece ficção científica: bezerros editados geneticamente com CRISPR-Cas9 para nascer com pelo mais curto, a característica chamada de “slick”.

Como funciona a edição genética do gado

A equipe de Camargo foi atrás do gene do receptor de prolactina e usou CRISPR-Cas9 para editá-lo ainda no zigoto. Depois, embriões editados foram produzidos por fertilização in vitro e transferidos para vacas receptoras. Nasceram cinco animais. Dois deles vieram com o fenótipo slick completo.

Pouco? Em número, sim. Mas é prova de conceito, e nos testes de verão feitos na Zona da Mata mineira os animais de pelo curto mostraram elevação menor de temperatura corporal e de frequência respiratória do que os de pelo longo. Ou seja: o mesmo calor, só que o corpo do bicho sofre menos.

Camargo foi direto ao dizer que o trabalho ainda é experimental. A equipe quer ampliar a amostra e, principalmente, confirmar se a característica se repete nas próximas gerações, o que é o verdadeiro teste de qualquer avanço genético: herdabilidade.

Produtor sentado ao lado de bovinos brancos em fazenda, manejo reprodutivo de bovinos

Reprodução assistida também avançou na mesma semana

O simpósio não foi só sobre edição genética. Roberto Torres Jr., da Embrapa Gado de Corte em Mato Grosso do Sul, mostrou que touros aprovados nos critérios de qualidade das centrais de inseminação ainda variam bastante em fertilidade entre si. Segundo ele, um modelo estatístico bem ajustado, corrigindo os efeitos certos, já entrega resultado confiável com menos dados, o que barateia a certificação de fertilidade para IATF.

Luiz Francisco Pfeifer, da Embrapa Rondônia, trabalhou a otimização de protocolos de IATF em sistemas de cria, tentando manter a fertilidade alta gastando menos mão de obra e sem sacrificar bem-estar animal. Ele também testou tratamento hormonal em vacas recém-paridas para melhorar a condição uterina, o que, nas palavras dele, “aumenta a probabilidade de as fêmeas ficarem prenhes”.

Já Margot Dode, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, no Distrito Federal, defendeu que a produção de embriões in vitro não deveria ser avaliada só pelo número de embriões gerados, mas pela qualidade e pela capacidade de desenvolvimento deles. Faz sentido: embrião de qualidade ruim não gera bezerro, só estatística bonita no relatório.

  • Embrapa Gado de Leite (MG): edição genética com CRISPR-Cas9 para tolerância ao calor
  • Embrapa Gado de Corte (MS): certificação de fertilidade de touros para IATF
  • Embrapa Rondônia: otimização de protocolos de IATF em sistemas de cria
  • Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (DF): qualidade de embriões produzidos in vitro
  • Universidade Federal do Ceará: marcadores moleculares de fertilidade no plasma seminal
Rebanho bovino em fazenda no Brasil, contexto de pesquisa em genética e reprodução

O que isso muda para quem está no campo

Arlindo Moura e sua equipe na UFC pesquisaram proteínas do plasma seminal, entre elas as da família BSP e a osteopontina (OPN), como possíveis marcadores de fertilidade. Moura fez a ressalva que todo pesquisador sério faz: os resultados variam conforme a população de animais, o método de avaliação e as condições do experimento, então nada disso vira regra geral da noite para o dia.

No fim, o recado do SimFertCorte foi esse: a pecuária de corte brasileira não vai ganhar eficiência reprodutiva com uma bala de prata só. É genética, é manejo hormonal, é estatística aplicada e, cada vez mais, biotecnologia de ponta como o CRISPR. Cinco bezerros editados não mudam a pecuária nacional da noite para o dia, mas mostram para onde a pesquisa está apontando.

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