Um levantamento da equipe técnica da Ceva Saúde Animal, publicado em julho de 2025, trouxe um dado que devia preocupar qualquer produtor de suínos no Brasil: de 246 amostras analisadas, 106 foram genotipadas, e 75,47% delas (80 amostras) eram do genótipo PCV2d. O PCV2b, que já foi o vilão dominante nos anos 2000, apareceu em só 22,64% dos casos. E o genótipo original, o PCV2a, base das primeiras vacinas comerciais, simplesmente não aparece mais nas amostras clínicas recentes.

Por que isso importa mesmo em granjas que vacinam
A maioria das vacinas comerciais contra circovirose suína foi desenvolvida com base no PCV2a, justamente o genótipo que praticamente desapareceu das amostras clínicas. Isso não quer dizer que a vacina parou de funcionar, a proteção cruzada entre genótipos existe e segue reduzindo a gravidade dos quadros. Mas explica por que granjas vacinadas ainda registram perdas de desempenho: o vírus que está circulando hoje é genética e antigenicamente diferente daquele que originou a formulação.
A linha do tempo da circovirose no Brasil
- Anos 1990: identificação do PCV2 como agente de doença em suínos.
- Anos 2000: emergência do PCV2b, associado a surtos mais graves e cargas virais maiores, torna-se o genótipo dominante por quase duas décadas.
- 2016: primeira identificação do PCV3 em amostras de suínos, associado a falhas reprodutivas e miocardite, ainda com papel isolado pouco compreendido.
- 2021: coleta dos dados brasileiros de genotipagem que mostram o PCV2d já amplamente disseminado.
- 2025: publicação do levantamento que confirma a virada de cenário.

O que o produtor pode fazer na prática
Infecções subclínicas por PCV2d reduzem desempenho zootécnico, elevam custo de produção e aumentam o tempo até o abate, mesmo sem um surto explícito e visível no plantel. Isso significa que o diagnóstico laboratorial periódico, e não só a observação clínica, virou peça obrigatória do manejo sanitário. Coinfecções com o PCV3 também são relatadas e podem agravar os quadros, o que reforça a importância de um protocolo de biosseguridade que não trate a circovirose como um problema já resolvido pela vacina padrão.

Vale registrar uma limitação dos próprios dados: o levantamento da Ceva não identifica a região geográfica das amostras nem traz série histórica completa por estado. Mesmo assim, o recado para a suinocultura brasileira é direto: acompanhar qual genótipo de PCV2 está circulando na sua região, e não só confiar que a vacina padrão resolve o problema sozinha, é o que separa granjas com desempenho estável das que seguem perdendo arroba sem entender muito bem o motivo.