Quando uma manchete fala em alta de 145% na exportação de algum produto do agro, a primeira reação é imaginar um setor bombando. No caso da carne de coelho, vale olhar o número inteiro antes de comemorar. Segundo o Boletim Conjuntural do Deral, o Departamento de Economia Rural da Secretaria da Agricultura do Paraná, com dados do sistema Agrostat, o Brasil exportou 14.892 quilos de carne de coelho em 2025. Isso é 145,5% a mais em volume que em 2024, e o faturamento subiu 157,2%, chegando a US$ 33.343.

Quinze toneladas num ano inteiro
Pouco menos de 15 toneladas, no ano todo. Para ter uma ideia de escala, é carga para um único caminhão. A porcentagem é real, o crescimento é real, mas parte de uma base tão pequena que qualquer contrato novo mexe no gráfico. Os destinos também mostram isso: Ilhas Marshall, Libéria, Singapura, Panamá e Noruega. Não é uma lista de grandes importadores de carne de coelho, é uma lista de compradores pontuais.
Outro detalhe curioso do boletim: os estados que aparecem como exportadores são Bahia, Pará e Maranhão, e não os estados do Sul que costumam ser associados à cunicultura comercial no país.

Por que a cunicultura brasileira nunca decolou
Coelho tem uma série de vantagens no papel. Ciclo reprodutivo curto, boa conversão alimentar, carne magra, possibilidade de criação em área pequena. Mesmo assim, o consumo no Brasil continua baixo e muito concentrado em nichos, e sem mercado interno firme fica difícil criar escala de abate com inspeção, que é exatamente o que um exportador precisa ter.
É um ciclo que se retroalimenta. Pouco consumo, poucos frigoríficos especializados, pouco produtor investindo, preço final alto, pouco consumo. Os números de 2025 não quebram esse ciclo sozinhos, mas mostram que existe comprador lá fora disposto a pagar quando a carne aparece.

O que olhar daqui para frente
Se a exportação de carne de coelho continuar crescendo nesse ritmo por mais alguns anos, aí sim vale falar em tendência. Por enquanto, o dado mais honesto é este: o setor saiu de quase nada para um pouco mais que quase nada, e isso já é notícia para uma atividade que passou décadas parada. Para quem cria ou pensa em criar coelho, o recado é olhar primeiro para o consumidor daqui, porque é ele que sustenta escala, e escala é o que abre exportação de verdade.