O Brasil Já Exportou 20 Mil Toneladas de Carne de Cavalo por Ano. O Que Fez Esse Mercado Encolher?

Pouca gente sabe, mas o Brasil já foi um exportador relevante de carne de cavalo. Em 2005, o país mandou para fora quase 20 mil toneladas, num negócio de US$ 35 milhões. Onze anos depois, em 2016, o volume tinha caído para perto de 3 mil toneladas e US$ 7,8 milhões. Os números são de um levantamento publicado pela Gazeta do Povo em 2017, com análise de Roberto Arruda de Souza Lima, professor do Departamento de Economia da Esalq/USP e especialista no complexo do cavalo. A pergunta que fica é simples: o que aconteceu no meio do caminho?

Cavalo em pasto rural no Brasil

Uma carne que quase ninguém come aqui

Carne de cavalo não faz parte do cardápio brasileiro, e por isso cerca de 99% do que se produzia ia para exportação, principalmente para a Europa. Em 2004 existiam seis frigoríficos de equinos ativos no país, dois no Paraná, dois no Rio Grande do Sul e dois em Minas Gerais. O Paraná sozinho tinha 60% desse mercado, segundo estudo da Esalq/USP. Em 2017, o estado já não tinha nenhum, e restavam só dois frigoríficos no Brasil inteiro, em São Gabriel (RS) e em Araguari (MG).

A queda não foi de uma vez. As exportações caíram pela metade até 2008, chegaram a 3.300 toneladas em 2010 e ficaram abaixo de 2 mil toneladas em 2013, antes de uma leve recuperação.

Cavalo de tração em fazenda brasileira

Rastreabilidade e mormo, os dois golpes

O primeiro golpe veio da Europa, que passou a exigir rastreabilidade do animal desde o nascimento. O problema é que o cavalo que ia para o abate no Brasil era, em geral, animal velho e de baixo valor, sem histórico nenhum. Ninguém investia em registrar a vida de um cavalo que, no fim, valia pouco. Sem rastreio, sem acesso ao comprador europeu.

O segundo golpe foi sanitário. Em 2013, um caso de mormo em Araguari levou à interdição de trânsito de animais num raio de 10 quilômetros, e o abate ficou parado de seis a oito meses por falta de matéria-prima. Enquanto isso, Uruguai e México ocuparam espaço no mercado internacional, o México em boa parte porque vários estados americanos proibiram o abate de equinos.

Potro em campo representando o rebanho equino brasileiro

O que essa história ensina para outras cadeias

O Brasil tem um rebanho de cerca de 8 milhões de cavalos, mulas e jumentos, segundo o IBGE, e um complexo do cavalo que movimenta bilhões por ano. A carne representava uma fatia mínima disso, 0,15% segundo o levantamento. Mesmo assim, a trajetória dela é um bom exemplo de algo que vale para qualquer proteína exportada: quando o comprador muda a regra e a cadeia não acompanha, o mercado some. E vale lembrar que esses números param em 2016, então o retrato atual do setor pode ser diferente. Para recuperar espaço, segundo o especialista da Esalq, seria preciso mudar a legislação e oferecer novas garantias sanitárias. A mesma lógica aparece hoje na rastreabilidade bovina obrigatória que o país começa a implantar.

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