Nutrição Mineral de Bovinos no Cerrado: Por Que o Fósforo Decide a Produtividade

Antes da suplementação mineral virar rotina nas fazendas brasileiras, o Cerrado tinha fama de terra ruim para gado. Não era bem assim. O capim crescia, a chuva caía, mas o boi definhava do mesmo jeito, e por muito tempo ninguém entendeu direito por quê. A resposta estava embaixo da terra: solos naturalmente pobres em fósforo, ácidos, com alumínio em excesso, um ambiente que castiga qualquer planta que tente absorver minerais dele.

Bovino em cocho de suplementação mineral a pasto

Por que o fósforo, especificamente, virou o vilão da história

De todos os minerais que faltam nos solos do Cerrado, o fósforo é o mais crítico para bovinos a pasto. Ele entra na formação óssea, na reprodução, no metabolismo energético inteiro do animal. Um boi com deficiência crônica de fósforo cresce menos, demora mais para entrar em cio, e em casos extremos desenvolve ossos frágeis e passa a roer madeira, terra, ossos de outros animais, num comportamento conhecido como pica, tentando compensar o que falta na dieta.

O britânico Neville Suttle, autor do livro de referência internacional sobre nutrição mineral de ruminantes, costuma descrever o fósforo como o mineral cuja falta mais rapidamente aparece em ganho de peso e desempenho reprodutivo, justamente porque o corpo do animal não consegue reciclá-lo com a mesma eficiência que faz com outros minerais quando a oferta cai.

Paisagem de pastagem no Cerrado brasileiro, região historicamente marcada por solos pobres em fósforo

Não é só fósforo: o caso da cara inchada

Fósforo puxa mais atenção, mas não é o único mineral em falta. Cobre e zinco também costumam estar abaixo do ideal em pastagens de Cerrado, dependendo da região e do manejo do solo. Um exemplo bem documentado é a cara inchada, doença que atinge bovinos em partes do Mato Grosso do Sul e que o veterinário Franklin Riet-Correa, um dos pesquisadores brasileiros mais citados em doenças metabólicas e intoxicações de ruminantes, ajudou a caracterizar como ligada à deficiência de cobre. A carência de cobre enfraquece a resposta imune do animal e facilita a infecção por uma bactéria do gênero Clostridium, que provoca o inchaço característico na cabeça.

É um bom exemplo de como um problema mineral, sozinho, raramente mata. Ele abre a porta para outra coisa, e é essa combinação que costuma pegar o produtor desprevenido.

Bovino zebuíno junto ao cocho de mistura mineral em pasto de Cerrado

Como a suplementação virou parte fixa do manejo

Hoje o sal mineral à vontade, disponível em cocho o ano inteiro, é considerado item básico de manejo em praticamente toda propriedade de cria e recria no Cerrado, não um luxo. Mas o mix ideal muda conforme a estação: no período seco, quando a pastagem perde qualidade, é comum usar sal proteinado ou mineral com maior concentração energética para segurar o desempenho do rebanho. No período das águas, o foco volta para a reposição mineral básica.

O erro mais comum ainda é tratar o cocho como decoração de curral: colocar o sal uma vez e esquecer, sem repor no ritmo certo, sem ajustar a fórmula à categoria animal (bezerro, vaca em lactação e touro têm exigências bem diferentes), e sem nunca checar se o consumo está de fato acontecendo. Fezes moles, pelagem opaca, queda de fertilidade: são sinais que costumam aparecer antes de qualquer exame de sangue confirmar a deficiência, e valem mais atenção do que costumam receber.

Deixe uma resposta

Compartilhar

Share on facebook
Facebook
Share on linkedin
LinkedIn
Share on telegram
Telegram
Share on whatsapp
WhatsApp

TAMBÉM QUER SEU ANÚNCIO AQUI? ENTRE EM CONTATO

Translate »