Suplementação de Fósforo em Pastagens Tropicais: Quanto é Necessário

Solo do Cerrado é velho. Muito velho, geologicamente falando, e isso significa que ele já perdeu a maior parte do fósforo original há milhões de anos, lixiviado ou fixado nos óxidos de ferro e alumínio que dão aquela cor vermelha característica à terra. Quando alguém pergunta por que a pastagem amarelou mesmo com chuva regular, na maioria das vezes a resposta não está na água, está no fósforo que praticamente não existe de forma disponível naquele solo, e que precisa ser reposto ano após ano pra planta sequer formar raiz decente.

Boi pastejando em pastagem tropical, base do sistema a pasto que depende da fertilidade do solo

Por que o fósforo desaparece tão rápido no solo tropical

A Embrapa Cerrados vem estudando esse problema desde os anos 1970, quando a região começou a virar fronteira agrícola. O que os pesquisadores encontraram foi um mecanismo chamado fixação de fósforo, o elemento aplicado como adubo reage com óxidos de ferro e alumínio presentes nos Latossolos e forma compostos praticamente insolúveis, indisponíveis pra planta absorver. Em solos argilosos do Cerrado, essa fixação pode segurar boa parte do fósforo aplicado logo na primeira adubação, o que explica por que produtor às vezes aduba e não vê resultado imediato: parte do investimento ficou retida no solo mesmo, funcionando quase como um banco que só libera aos poucos.

Quanto aplicar na formação e quanto na manutenção

Na formação da pastagem, a recomendação da Comissão de Fertilidade do Solo costuma girar em torno de 60 a 100 kg de P2O5 por hectare, dependendo da análise de solo e da espécie forrageira escolhida. É uma dose alta, pensada pra vencer essa fixação inicial e garantir que a Urochloa (o gênero que inclui a braquiária) enraíze bem. Depois que a pastagem está formada, a conta muda bastante: manutenção anual costuma ficar entre 20 e 40 kg de P2O5 por hectare em sistemas bem manejados, valor que sobe ou desce conforme a lotação animal e a intensidade de pastejo. Pasto muito pastejado exporta mais fósforo via carne e leite do que pasto mal aproveitado, então quem intensifica precisa repor mais.

Vaca junto ao cocho de suplementação mineral, forma comum de corrigir deficiência de fósforo no pasto

Fósforo no solo não substitui fósforo no cocho

Aqui tem uma confusão comum. Adubar a pastagem melhora a planta, mas não resolve sozinho a deficiência de fósforo no animal, porque a forragem tropical, mesmo bem adubada, raramente concentra fósforo suficiente pra suprir a exigência de um bovino adulto em produção. É por isso que o cocho de sal mineral com fósforo continua sendo praticamente obrigatório em pastagem brasileira, diferente de países de clima temperado onde às vezes a suplementação mineral é mais simples. A deficiência de fósforo no animal aparece de um jeito característico: perda de apetite, pica (o animal roendo osso, madeira, terra), queda de fertilidade e, em casos avançados, ossos frágeis que fraturam com facilidade.

Gado se aproximando do cocho de suplementação mineral em pastagem, estratégia de manejo nutricional

Vale lembrar que exagerar também custa caro. Fósforo é um dos insumos mais caros da adubação, e aplicar acima do que a análise de solo indica não traz ganho proporcional de produtividade, só engorda o custo por arroba. A recomendação mais sensata, e a mais chata de seguir na prática, é simplesmente fazer a análise de solo a cada dois ou três anos e ajustar a dose com base nisso, em vez de repetir a mesma receita todo ano por hábito.

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