Uma granja comercial de perus em Nova Itaberaba, no oeste de Santa Catarina, confirmou um foco da doença de Newcastle. O resultado foi uma emergência zoossanitária declarada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) em quatro municípios catarinenses, e um efeito em cascata que já chegou às exportações brasileiras de carne de aves.

O que aconteceu em Nova Itaberaba
O foco foi identificado numa granja de perus de corte no município. Assim que o diagnóstico foi confirmado, equipes da Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc) e do Instituto Catarinense de Sanidade Agropecuária (Icasa) entraram em ação junto com o Mapa. Entre os dias 19 e 20 de outubro, o lote inteiro da propriedade passou por despovoamento sanitário, o abate preventivo de todas as aves do local para impedir que o vírus se espalhasse. Depois do abate, a granja foi submetida a limpeza e desinfecção completas.
Com o foco confirmado, o Mapa publicou a Portaria nº 962 de 2026, que declara emergência zoossanitária por 60 dias em quatro municípios: Nova Itaberaba, Águas Frias, Coronel Freitas e Nova Erechim. Na prática, isso significa vigilância redobrada nas propriedades rurais do entorno e controle sobre a movimentação de animais, insumos e veículos dentro da área restrita. A Prefeitura de Nova Itaberaba e a Polícia Civil também acompanham a fiscalização na região.

Por que um foco isolado derruba exportações inteiras
A doença de Newcastle é de notificação obrigatória à Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA), e o Mapa cumpriu o protocolo: avisou o organismo internacional e comunicou diretamente os principais parceiros comerciais do Brasil. A resposta de alguns países foi imediata, e aqui está o detalhe que costuma surpreender quem está fora do setor: as restrições não seguem sempre a mesma régua geográfica.
Malásia e México decidiram bloquear o Brasil inteiro, não só Santa Catarina. A Malásia suspendeu a entrada de carne de aves, derivados e miúdos de qualquer estado brasileiro. O México foi além e baniu aves vivas, carne, miúdos, ovos fecundados, pintos de até três dias e até aves de estimação ou ornamentais de todo o território nacional. Já China, Arábia Saudita e Chile restringiram apenas produtos de Santa Catarina: China e Arábia Saudita suspenderam a carne de aves do estado, e o Chile foi mais específico ainda, vetando carne fresca, derivados, ovos fecundados, pintos de um dia e aves ornamentais originários daquele estado.
Essa diferença existe porque cada país aplica sua própria análise de risco sanitário. Alguns tratam o Brasil como bloco único por precaução, outros reconhecem a regionalização e restringem só a área afetada. Para o setor avícola catarinense, que é um dos maiores exportadores do país, o impacto comercial já está em curso enquanto a emergência sanitária segue sua rotina de 60 dias.

O consumidor brasileiro está exposto?
O Mapa foi categórico num ponto: a carne de frango e os ovos inspecionados que chegam ao mercado interno continuam seguros, sem qualquer restrição sanitária para o consumo doméstico. A doença de Newcastle afeta aves e pode causar perdas produtivas graves em granjas, mas não é considerada uma zoonose relevante para humanos nos termos em que a vigilância sanitária brasileira a trata.
O que muda, de fato, é a logística comercial: cargas destinadas aos países que impuseram restrições precisam ser redirecionadas, e produtores de Santa Catarina ficam sob vigilância mais rígida até o fim do período declarado pela Portaria 962.
O que esperar daqui para frente
Historicamente, o Brasil já passou por episódios semelhantes de doença de Newcastle em granjas isoladas, e o padrão de resposta costuma seguir o mesmo roteiro: despovoamento rápido, notificação internacional, emergência zoossanitária regional e, com o tempo, a reabertura dos mercados depois que o país demonstra ausência de novos focos. A velocidade dessa reabertura depende de dois fatores: nenhum novo caso aparecer na região sob vigilância e a eficiência da comunicação entre Mapa, Cidasc e os países importadores.
Para quem acompanha a cadeia avícola, o episódio de Nova Itaberaba reforça por que a biossegurança dentro da granja, desde o controle de acesso até o manejo de dejetos, continua sendo a primeira e mais barata linha de defesa contra um prejuízo que, uma vez confirmado, sai do controle do produtor individual e passa para as mãos da diplomacia sanitária internacional.