Leishmaniose Visceral Canina: Por Que o Brasil Ainda Debate Sacrificar Cães Positivos

A leishmaniose visceral é transmitida pela picada do mosquito-palha infectado e tem o cão como principal reservatório urbano da doença: quanto mais cães com o parasita circulando num bairro, maior a chance de o mosquito se infectar e picar uma pessoa depois. É justamente por esse papel do cão que o Brasil mantém, desde 2008, uma das políticas mais controversas da saúde pública veterinária do país.

Veterinário examinando cão em clínica veterinária

A regra que divide veterinários até hoje

A Portaria Interministerial MS/Mapa nº 1.426, de 2008, proíbe tratar cães infectados ou doentes com leishmaniose visceral usando remédios de uso humano ou produtos sem registro no Ministério da Agricultura. Na prática, isso empurra o protocolo oficial para a eutanásia dos cães diagnosticados, depois de dois testes e da avaliação de um médico veterinário responsável.

O problema é que a comunidade científica nunca chegou a um consenso sobre isso. Guilherme Werneck, pesquisador de saúde pública e epidemiologia, afirma que não existe evidência científica sólida o bastante para sustentar nem a eutanásia nem o tratamento de cães infectados no Brasil, e defende que a decisão deveria vir de pesquisa, não de portaria. Já a veterinária Sibele Cação, ex-presidente do CRMV de Mato Grosso do Sul, argumenta que sacrificar os cães não resolve o problema e defende educação em saúde, esterilização em massa e controle ambiental do mosquito vetor como caminho mais eficaz.

Cão doméstico em área externa de casa

Os números mostram por que ninguém trata isso como exagero

Minas Gerais registrou cerca de 550 casos de leishmaniose, somando as formas visceral e tegumentar, só entre janeiro e agosto de 2024, com 10 mortes no estado naquele ano. Segundo Eduardo Prosdocimi, subsecretário de Vigilância em Saúde de Minas Gerais na época, a letalidade da forma visceral da doença chega perto de 90% quando não é tratada a tempo em humanos, o que explica por que o controle da doença no cão é tratado como prioridade de saúde pública e não só como assunto veterinário.

  • Procurar o veterinário ao notar perda de peso progressiva, descamação da pele e crescimento excessivo das unhas no cão;
  • Usar coleiras ou produtos repelentes específicos contra o mosquito-palha, recomendados pelo médico veterinário;
  • Evitar acúmulo de matéria orgânica e lixo no quintal, onde o mosquito se reproduz;
  • Procurar a vigilância em saúde do município para testar o cão diante de qualquer suspeita, em vez de tentar tratamento por conta própria.
Cão preto sentado em gramado ao ar livre

Quase duas décadas depois da portaria, o debate entre tratar e eliminar o cão positivo continua sem resposta fechada, e é o tutor que acaba no meio dele.

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