O Brasil fechou 2024 com 13.292.844 cabras, o maior rebanho já registrado pela Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM), levantamento oficial de pecuária conduzido todo ano. É um salto de 3,1% em relação ao ano anterior e de quase 10% desde 2020, quando o país tinha cerca de 12,1 milhões de cabeças. Para um rebanho que durante décadas foi tratado como atividade marginal, esse crescimento sustentado já não é mais exceção, é tendência.
O detalhe que explica quase tudo é a geografia: o Nordeste concentra cerca de 96% desse rebanho. A Bahia sozinha tem aproximadamente 4,20 milhões de cabeças, 31,6% do total nacional, seguida por Pernambuco, com cerca de 3,42 milhões, e Piauí, com 2,06 milhões. Essas três estados juntos respondem por quase 73% das cabras do Brasil, e municípios como Casa Nova e Juazeiro, na Bahia, e Floresta e Petrolina, em Pernambuco, aparecem entre os maiores produtores do país.
Preço sobe mais que a inflação
Quem cria cabra no semiárido também sentiu isso no bolso em 2026. Em julho, o quilo da carne caprina viva no Nordeste chegou a R$ 12,03, contra R$ 10,58 no mesmo mês do ano anterior, uma alta de 13,7%. Para efeito de comparação, a inflação acumulada no mesmo período foi de 4,64%, ou seja, o preço do animal vivo subiu quase três vezes mais rápido que o custo de vida em geral.
O leite de cabra também cresceu. O Nordeste tem hoje cerca de 13 mil fazendas leiteiras especializadas, responsáveis por aproximadamente 18,2 milhões de litros por ano, perto de 70% de toda a produção nacional considerada em levantamentos da Embrapa e da Cepea. Em julho de 2026, o litro foi vendido a R$ 3,82 no Nordeste e R$ 4,31 no Sudeste.

O paradoxo: maior rebanho, presença quase nula nas exportações
Aqui está o contraste que poucos esperam: apesar do rebanho recorde, um estudo da Embrapa de 2025 aponta que o Brasil responde por apenas 0,53% da produção mundial de carne caprina, com papel praticamente irrelevante nas exportações do produto. O país cria cabra em volume respeitável, mas quase tudo fica dentro de casa, consumido localmente ou vendido informalmente dentro do próprio semiárido.
Parte da explicação está na própria estrutura da criação. A caprinocultura nordestina ainda é, em boa parte, uma atividade de pequena escala, puxada por programas como o PAA e o PNAE, que compram direto do produtor familiar. Isso garante renda e segurança alimentar local, mas não cria o tipo de escala e padronização que abre porta de exportação.
Mesmo assim, o ganho de produtividade é real. O sistema Cabrito Ecológico, desenvolvido pela Embrapa, já registra 1,71 crias por cabra parida, mortalidade abaixo de 5% até o desmame e abate entre 8 e 10 meses com animais de cerca de 25 kg vivo. No Piauí, um dos estados que mais cresceu, o rebanho passou de 1,91 milhão para 2,06 milhão de cabeças entre 2020 e 2024, alta de 7,82%.

O Brasil tem hoje, nas palavras que os próprios pesquisadores da Embrapa usam, um dos maiores rebanhos de caprinos das Américas. O que falta não é animal, é organização de cadeia, abate padronizado e genética voltada para escala comercial. Enquanto isso não muda, o recorde de 2024 continua sendo, antes de tudo, uma história de segurança alimentar no semiárido, não de mercado internacional.