Um dos maiores desafios da pecuária bovina no Brasil não é a produtividade, é o metano que o próprio animal produz ao digerir forragem no rúmen. A Embrapa Pecuária Sul, em Bagé, no Rio Grande do Sul, está testando uma saída que parecia improvável até pouco tempo atrás: usar resíduos da indústria de vinho e de olivas, que normalmente seriam descartados, para alimentar o gado e reduzir a fermentação ruminal que gera o gás.
Segundo a pesquisadora Cristina Genro, responsável pelo estudo, a aposta está em compostos secundários presentes nesses rejeitos agroindustriais, como resíduos de olivas, óleo de mamona, vinho e suco de uva. Esses compostos interferem no processo de fermentação no rúmen e, com isso, reduzem a quantidade de metano que o animal libera. A projeção da pesquisadora é que a suplementação, feita em pastagens bem manejadas, possa reduzir as emissões em cerca de 30%, mas esse número ainda é uma expectativa do estudo, não um resultado medido e publicado.
Como o teste está sendo feito
A pesquisa segue um protocolo em três etapas: primeiro testes in vitro, depois ensaios in vivo em gaiolas metabólicas, e por fim testes em campo. Na etapa de campo, a suplementação é oferecida na fase de terminação dos animais, durante o pastejo de inverno, por um período de cerca de 120 dias. É esse último estágio que vai dizer se o efeito observado em laboratório se repete em condição real de confinamento a pasto.
O raciocínio por trás do estudo é prático: o Rio Grande do Sul tem indústria vinícola forte e também produção de olivas em expansão, o que significa resíduo disponível localmente, sem custo extra de transporte de longa distância. Se a suplementação funcionar na escala esperada, o produtor não estaria apenas reduzindo metano, estaria dando destino econômico a um subproduto que hoje vira descarte.

Metano entérico: por que isso importa agora
A fermentação ruminal é hoje a maior fonte de metano de origem agropecuária no Brasil, e o metano é um gás de efeito estufa muito mais potente que o CO2 no curto prazo. Isso coloca a pecuária bovina no centro de compromissos internacionais de redução de emissões assumidos pelo país, o que torna pesquisas como essa da Embrapa Pecuária Sul uma prioridade, não um projeto de nicho.
Vale reforçar que a redução de 30% ainda não é um dado fechado, é a expectativa da equipe de pesquisa enquanto os testes de campo avançam. Outras estratégias discutidas pela própria Embrapa para o mesmo problema, sem percentual definido ainda, incluem melhorar a oferta de alimento ao longo do ano, usar espécies forrageiras mais digestíveis e antecipar o abate, já que um animal terminado mais rápido emite metano por menos tempo de vida.

O que essa linha de pesquisa mostra, de forma mais ampla, é que a resposta brasileira ao metano entérico não vai vir de uma única solução, vai ser uma combinação de manejo de pastagem, genética, nutrição e aproveitamento de resíduos que antes eram apenas descartados.