Quem cria frango de corte sabe que o lote inteiro depende de decisões tomadas nos primeiros dias de vida, muitas vezes antes mesmo de o pintinho sair do ovo. A vacinação é uma dessas decisões, e errar a via de aplicação ou o momento certo pode custar caro lá na frente, em forma de mortalidade, queda de desempenho ou problemas sanitários que só aparecem semanas depois.

Marek começa ainda no incubatório
A primeira vacina que o pintinho recebe normalmente nem é aplicada depois do nascimento. A vacina contra a doença de Marek costuma ser dada in ovo, por volta do 18º dia de incubação, ou então no primeiro dia de vida, por via subcutânea na região da nuca. O motivo é simples: o vírus de Marek é extremamente contagioso e se instala rápido no ambiente do aviário, então não dá pra esperar. No Brasil, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) regula esse processo por meio do Programa Nacional de Sanidade Avícola, que estabelece as exigências sanitárias para os plantéis matrizes e para os incubatórios que fornecem pintinhos ao mercado.
Vale um detalhe que costuma confundir gente que está começando: a vacina in ovo é aplicada por máquinas automatizadas nos grandes incubatórios, com agulha calibrada para atingir o saco amniótico sem lesionar o embrião. É um processo de precisão, e por isso a maior parte da vacinação contra Marek em escala comercial já não depende mais de mão humana.

Newcastle e bronquite infecciosa, a dupla do spray
Por volta do primeiro dia de vida, ainda no incubatório, a maioria dos lotes recebe uma vacina combinada contra doença de Newcastle e bronquite infecciosa, geralmente aplicada por spray grosso sobre a caixa de pintinhos ou via água de bebida assim que chegam ao galpão. Essas duas doenças respiratórias têm impacto direto sobre conversão alimentar e uniformidade do lote, então proteger cedo compensa. Uma segunda dose, de reforço, costuma entrar entre o 10º e o 14º dia, dependendo do desafio sanitário da região e do histórico da granja.
Aqui entra um ponto que técnicos de campo repetem bastante: a qualidade da água usada na vacinação via bebedouro importa tanto quanto a vacina em si. Água clorada ou com resíduo de desinfetante pode inativar o vírus vacinal antes mesmo de o frango beber, e aí a imunização simplesmente não funciona, mesmo com o produto certo comprado e aplicado.
Gumboro e a corrida contra o anticorpo materno
A vacinação contra a doença de Gumboro, também chamada de bursite infecciosa, é talvez a mais delicada de calibrar. O problema é que os pintinhos nascem com anticorpos maternos que, em vez de ajudar, podem neutralizar a vacina se ela for aplicada cedo demais. Por isso muitos programas sanitários usam vacinas de titulação intermediária ou até vacinas de vetor recombinante, aplicadas in ovo ou no primeiro dia, especificamente desenhadas pra escapar dessa interferência. Em sistemas mais tradicionais, a vacinação via água costuma ocorrer entre o 14º e o 18º dia, num momento em que a proteção materna já caiu o suficiente para não atrapalhar.

No fim das contas, calendário de vacinação bom é aquele calibrado pra realidade de cada granja, considerando pressão de desafio da região, histórico de doenças e orientação de um médico veterinário que acompanhe o plantel de perto. Não existe protocolo genérico que sirva pra todo mundo igual, mas os princípios (proteger cedo, respeitar a janela imunológica e garantir que a vacina chegue viva até o frango) valem pra qualquer sistema de produção.