Quem acha que a soja se vira sozinha, sem depender de bicho nenhum para produzir grão, precisa rever essa ideia. Um levantamento da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia encontrou 27 registros inéditos de espécies de abelhas nativas associadas à soja no sudoeste de Goiás, nas regiões de Rio Verde e Montividiu. Antes desse estudo, as revisões científicas disponíveis até 2018 contavam apenas 12 espécies de abelhas nativas ligadas à cultura em todo o Brasil.

De 12 para 53 espécies em uma única região
No total, a pesquisa catalogou 40 espécies de abelhas só dentro das lavouras de soja, e 53 espécies quando se somam também as matas nativas vizinhas, distribuídas em cinco famílias diferentes. A pesquisadora Carmen Pires, da Embrapa, conduziu o estudo dentro do projeto Regenera Cerrado, uma parceria entre a Embrapa, a Universidade de Brasília, a Universidade Federal da Bahia, o Instituto Federal Goiano de Rio Verde e a Cargill.
O salto no número de espécies registradas não significa que essas abelhas apareceram do nada. Mais provável é que elas sempre estiveram lá, só que ninguém tinha ido procurar com esse nível de detalhe perto das lavouras comerciais. Isso levanta uma pergunta incômoda para quem lida com soja no dia a dia: quantas outras espécies estariam circulando em plantações pelo Brasil, sem que o manejo da propriedade sequer saiba que elas existem?

Grão 7% mais pesado com abelha por perto
A soja é autopolinizável, ou seja, não depende de abelha para produzir vagem. Mas o estudo mostrou que a presença de abelhas silvestres na lavoura pode aumentar o peso dos grãos em média 7%. Não é um número que vai dobrar a produtividade de ninguém, mas em uma cultura que se mede em milhões de toneladas, um ganho de peso de 7% nos grãos representa receita real, e sem gastar um centavo com isso.
- 27 registros inéditos de abelhas associadas à soja no sudoeste de Goiás.
- 40 espécies encontradas dentro das lavouras comerciais.
- 53 espécies no total, somando matas nativas vizinhas, em cinco famílias.
- Aumento médio de 7% no peso dos grãos de soja na presença de abelhas silvestres.

O que isso muda no manejo da propriedade
Esse tipo de dado é relevante para quem decide como e quando aplicar defensivos agrícolas. Lavoura que preserva faixas de vegetação nativa no entorno tende a manter mais abelhas por perto, e isso tem reflexo direto na lavoura vizinha, inclusive na pecuária que usa pastagem próxima a áreas de soja. O trabalho da Embrapa reforça algo que o setor já suspeitava, mas agora tem número para sustentar: conservar um pedaço de mata ao lado da lavoura não é só uma concessão ambiental, é também uma decisão com retorno econômico mensurável.