Todo pecuarista já viu de perto o fenômeno que o setor chama, sem nenhuma delicadeza, de boi sanfona: o animal engorda nas águas e desengorda na seca, ano após ano, como se estivesse preso num sanfona que só vai para trás. A causa raramente é genética. Na maioria das vezes é mato ruim e suplementação errada.

Por que a seca é tão dura para o rebanho
De abril a setembro, nos trópicos do hemisfério sul, a estacionalidade forrageira aperta. Produzir capim de qualidade o ano inteiro é praticamente impossível, segundo artigo técnico publicado pela CNA Brasil. O erro clássico é vedar os piquetes cedo demais: isso aumenta o intervalo entre cortes, deixa o capim crescer demais e a planta investe em haste em vez de folha. Resultado, o boi gasta mais tempo por bocado e ainda assim ingere menos matéria seca por dia, e o que sobra na forragem tem menos mineral, menos proteína e menos energia, com mais fibra indigestível.
As três faixas de suplementação, sem mistério
O texto da CNA detalha três patamares de suplementação mineral e o ganho de peso esperado em cada um:
- Mineral ureado, com a ureia como única fonte de nitrogênio: serve só para manter o peso vivo, não espere ganho.
- Mineral proteico, com 30% de proteína bruta e consumo de 100 g a cada 100 kg de peso vivo: ganho de 150 a 250 g por animal por dia.
- Mineral proteico energético, também com 30% de proteína bruta, mas em consumo de 200 g a cada 100 kg de peso vivo: ganho de 300 a 500 g por animal por dia.
Em qualquer um dos três casos, o fator decisivo continua sendo a quantidade de forragem disponível. Suplemento não substitui pasto, complementa.

O cocho não precisa ser abastecido todo dia
Um detalhe prático que muita gente ignora: não é necessário reabastecer o cocho diariamente. O recomendado é monitorar a cada três dias. Mas os cochos precisam ser cobertos, porque chuvas ocasionais ainda acontecem mesmo no período seco, e precisam ter furos para escoar água, já que o suplemento leva ureia e não pode encharcar.
A composição do suplemento combina proteína verdadeira, normalmente de farelo de soja, com nitrogênio não proteico vindo da ureia. A proporção entre as duas fontes varia de acordo com o teor de proteína bruta do produto escolhido e com o valor nutricional do que está sobrando no pasto.

O objetivo não é sobreviver à seca, é ganhar peso nela
Esse é talvez o ponto mais importante do texto da CNA: o objetivo do pecuarista no período seco não deveria ser só manter o rebanho vivo até as águas voltarem. Deveria ser ganhar peso mesmo na seca. Quem só mantém o peso vivo está, na prática, empatando o jogo contra o calendário, e isso tem custo real no fechamento do ano, porque cada ciclo de perda e recuperação de peso consome recursos que poderiam ir direto para arroba produzida.
Vale lembrar que suplementação mineral de manutenção e suplementação proteico energética são produtos diferentes, com objetivos diferentes, e confundir um pelo outro é um dos jeitos mais comuns de gastar dinheiro com sal mineral sem ver resultado no couro do animal.