A peste suína africana já infectou rebanhos na Bélgica, na Itália, na Suécia e na Espanha, e o Reino Unido entrou em estado de alerta reforçado. Segundo reportagem da revista britânica Pig World, a Animal and Plant Health Agency (APHA), autoridade sanitária do país, classifica como médio o risco de a doença entrar por animais vivos e produtos de origem animal, um risco que sobe para alto quando se considera o transporte ilegal de carne suína vinda de áreas afetadas.

Um vírus que não perdoa erro de biossegurança
A peste suína africana não tem vacina comercialmente disponível em escala e não afeta humanos, mas é devastadora para os rebanhos: a letalidade em suínos pode chegar perto de 100% nos surtos mais graves, e a única forma de conter um foco confirmado é o abate sanitário de toda a granja afetada. Foi justamente esse cenário que levou a Polônia, em episódio recente citado pela imprensa europeia, a sacrificar mais de 21 mil suínos depois de um surto confirmado numa única granja.
No Reino Unido, a preocupação aumentou depois que as autoridades interceptaram 14 toneladas de produtos suínos ilegais só no Porto de Dover em uma semana. Carne contaminada contrabandeada é uma das rotas mais comuns de entrada do vírus em países até então livres da doença, porque ele resiste bem em produtos processados e pode sobreviver meses em carne congelada ou curada.

A doença já chegou às Américas uma vez
O continente americano não é imune a esse risco. Em 2021, a peste suína africana foi confirmada na República Dominicana, marcando o primeiro registro da doença nas Américas desde 1978. O caso acendeu um alerta continental e levou vários países, Brasil incluído, a reforçar a vigilância em portos, aeroportos e fronteiras, já que o vírus pode viajar em bagagens, encomendas e restos de alimentos de origem suína.
O Brasil nunca registrou um caso de peste suína africana e é hoje um dos maiores exportadores mundiais de carne suína, posição que depende diretamente dessa condição de país livre da doença. Qualquer foco confirmado em território nacional fecharia mercados de exportação de forma imediata, como já aconteceu em outros países europeus que perderam parceiros comerciais assim que a doença foi detectada.

O que protege a suinocultura brasileira
- Restrição à importação de material genético e produtos suínos de países com casos ativos.
- Fiscalização de bagagens e encomendas internacionais em portos e aeroportos.
- Vigilância ativa em frigoríficos e granjas, com protocolos de notificação obrigatória de qualquer suspeita.
- Restrição ao uso de restos de alimentos (lixo de cozinha) na alimentação de suínos, prática historicamente associada à entrada do vírus em outros países.
Nenhuma dessas barreiras é à prova de falhas sozinha, o que explica por que associações do setor, como a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), tratam a biossegurança como responsabilidade conjunta entre governo e produtor. Um surto na Europa, a milhares de quilômetros de distância, pode parecer notícia distante, mas é justamente esse tipo de alerta internacional que mantém o Brasil revisando seus próprios protocolos antes que o problema chegue perto de casa.