Enquanto a maior parte do agronegócio brasileiro reclama de preço baixo, o setor de mel viveu em 2025 um dos seus melhores momentos e, poucos meses depois, levou um susto que pode apagar boa parte desse ganho. Entre janeiro e julho de 2025, o Brasil exportou 22.676 toneladas de mel in natura, 7,2% mais que no mesmo período de 2024, faturando US$ 74,4 milhões, salto de 37,3%. O preço médio chegou a US$ 3.283,74 por tonelada, 28% acima do ano anterior, segundo o Boletim de Conjuntura Agropecuária do Deral/Seab do Paraná.
Os Estados Unidos sozinhos valem a safra
Os EUA compraram cerca de 85% de todo o volume exportado, 19.250 toneladas, por US$ 63 milhões, a um preço médio de US$ 3,27 por quilo, 28,8% maior que no ano anterior. Minas Gerais liderou o faturamento estadual com US$ 16,8 milhões, seguido de perto pelo Piauí, com US$ 16,2 milhões. O Paraná, em terceiro lugar, praticamente triplicou a receita: saiu de 2.191 toneladas e US$ 5,5 milhões em 2024 para 4.637 toneladas e US$ 15,2 milhões em 2025. Canadá, Alemanha, Reino Unido e Holanda completam a lista de compradores relevantes, mas nenhum chega perto do peso americano.

Em 9 de julho, o tarifaço mudou o jogo
No dia 9 de julho de 2025, o governo dos Estados Unidos anunciou uma tarifa de 50% sobre todas as importações brasileiras, em vigor a partir de 6 de agosto. Para um setor que depende dos EUA para quase 9 de cada 10 quilos exportados, o golpe é direto. A reação veio pelo governo federal: a Portaria Interministerial nº 12/2025, publicada em 22 de agosto pelo Mapa e pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário, autorizou compras públicas emergenciais para compensar parte das perdas de produtores e exportadores afetados, com o mel entre os produtos cobertos, ao lado de açaí, castanha, manga, uva e peixe.

Como funciona a compensação
- Exportadores precisam registrar a perda no Siscomex.
- Produtores fazem uma autodeclaração de perda.
- As compras se apoiam na Medida Provisória nº 1.309/2025 e na Lei de Licitações (Lei nº 14.133/2021).
- O texto oficial do governo diz que “essa contratação atenderá diretamente os setores afetados pelas tarifas adicionais, incluindo a produção de mel natural”.
Um recorde que ainda não sabe se vai se repetir
É uma situação meio irônica: o apicultor brasileiro nunca vendeu tão bem para os americanos, e justo quando a conta parecia estar fechando, uma decisão política em Washington jogou toda a equação para o ar. O programa de compra emergencial ajuda a segurar o golpe neste momento, mas não resolve o problema de fundo, que é a dependência de um único comprador para quase 9 em cada 10 quilos de mel que saem do Brasil. Diversificar destino deixou de ser discurso de palestra e passou a ser questão de sobrevivência para o setor.