Carrapato do Boi Já é Resistente a Quase Todos os Carrapaticidas do Mercado, Alerta Embrapa

Se você trata o carrapato do boi com o mesmo produto de sempre e sente que ele está rendendo cada vez menos, a conta não está na sua cabeça. A Embrapa Gado de Corte, em Campo Grande (MS), documentou algo que boa parte da pecuária brasileira evita encarar de frente: o Rhipicephalus microplus, o carrapato que mais castiga o gado no país, já tem resistência confirmada a praticamente todos os grandes grupos químicos usados no controle, dos organofosforados às lactonas macrocíclicas como a ivermectina.

Um problema que começou em 1953 e nunca parou

Os primeiros registros de resistência do carrapato a um carrapaticida no Brasil são de 1953, com o arsênio. Desde então, segundo o Comunicado Técnico 123 da Embrapa Gado de Corte, assinado pelos pesquisadores João Batista Catto, Renato Andreotti e Wilson Werner Koller, a resistência já foi confirmada para organoclorados, organofosforados, piretroides sintéticos, amidinas (o grupo do amitraz) e lactonas macrocíclicas. Fluazuron e spinosad, pelo menos até a publicação do estudo, ainda não tinham resistência detectada no país.

Veterinário examinando bovino em propriedade rural

Por que o carrapaticida parou de funcionar

No caso dos organofosforados, a resistência está ligada normalmente a um único gene semidominante, o que é um detalhe técnico com consequência prática: até os carrapatos heterozigotos (que herdaram só uma cópia do gene) sobrevivem ao produto, só que em menor número que os homozigotos. Já os piretroides sintéticos viraram a aposta principal da pecuária nos anos 1980, justamente depois que os carrapaticidas mais antigos começaram a falhar, e as amidinas como o amitraz seguem entre os mais usados há mais de 20 anos. É basicamente o mesmo roteiro se repetindo: um grupo químico novo chega, funciona bem por um tempo, o uso se intensifica, e a resistência aparece de novo.

O que a Embrapa recomenda em vez de trocar de produto toda hora

O comunicado técnico traz um roteiro de manejo que vale mais do que qualquer rótulo de produto novo:

  • Fazer teste de sensibilidade em cada propriedade, repetido todo ano, antes de decidir qual carrapaticida usar.
  • Trocar o princípio ativo por outro de mecanismo de ação diferente no máximo a cada dois anos.
  • Para controle estratégico por banho de contato: cinco a seis aplicações a cada 21 dias (30 dias no pour-on); lactonas macrocíclicas podem ir a cada 30 dias e fluazuron a cada 45 dias.
  • No Brasil-Central, iniciar o controle estratégico em setembro, período menos favorável ao carrapato.
  • Isolar animais recém-chegados por 30 dias após o banho, ainda na propriedade de origem.
  • Manter bovinos separados de equinos, para não misturar infestações.

Tem um detalhe que costuma passar batido: mais de 95% da população de carrapatos está no campo, não no couro do animal. Por isso, rotação de pastejo e integração lavoura-pecuária, com os animais fora da área por pelo menos 60 dias, pesam tanto quanto o produto químico escolhido.

Gado em pastagem no Brasil, manejo de pasto relacionado ao controle do carrapato

O carrapato não vai sumir, mas o estrago pode encolher

Ninguém vai erradicar o Rhipicephalus microplus do Brasil Central nem do resto do país, essa briga já tem mais de 70 anos e o carrapato está ganhando terreno químico a químico. O que dá para fazer é parar de tratar o carrapaticida como solução permanente e começar a tratar como ferramenta que se esgota, com teste de sensibilidade, rotação de princípio ativo e manejo de pastagem entrando na conta. Produtores interessados em testar a sensibilidade dos carrapatos da própria fazenda podem recorrer ao laboratório da Embrapa Gado de Corte, que recebe amostras de teleóginas coletadas pela manhã e refrigeradas.

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