Impacto do Estresse Térmico na Produção de Leite em Vacas

Toda queda de produção no verão tem uma explicação fisiológica por trás, mesmo quando a dieta continua exatamente igual. O calor excessivo muda o comportamento da vaca antes de qualquer outra coisa: ela come menos, bebe mais água e passa mais tempo em pé, tentando dissipar calor. Cada um desses ajustes tem um custo produtivo.

Vaca leiteira em campo aberto exposta ao calor

O que o ITU realmente mede

O Índice de Temperatura e Umidade (ITU), desenvolvido a partir de trabalhos como os de Thom na década de 1950 e depois refinado para gado leiteiro por pesquisadores como Donald Bray e Ray Bucklin, da Universidade da Flórida, combina temperatura do ar e umidade relativa numa única escala. A partir de um ITU próximo de 68, vacas de alta produção já começam a mostrar sinais de estresse térmico, mesmo que a temperatura sozinha pareça moderada. É justamente essa combinação de calor e umidade alta que torna certas regiões do Brasil particularmente desafiadoras, porque o calor seco é mais fácil de dissipar do que o calor úmido.

Um detalhe que muitos produtores não percebem: o efeito do calor sobre a produção de leite aparece com atraso. A vaca pode estar sob estresse térmico hoje e a queda real no tanque só aparecer dois ou três dias depois, porque o metabolismo leva um tempo pra reagir plenamente à redução na ingestão de matéria seca.

Vacas leiteiras bebendo água em bebedouro na fazenda

A cadeia de efeitos, da boca ao úbere

A pesquisadora Lance Baumgard, da Iowa State University, tem uma linha de pesquisa influente mostrando que boa parte da queda de produção sob estresse térmico não vem só da menor ingestão de alimento. O próprio calor redireciona o metabolismo da vaca: ela passa a priorizar a dissipação de calor e a proteção dos tecidos intestinais em detrimento da síntese de leite, num processo que envolve mudanças hormonais e inflamatórias que vão além da simples conta de comeu menos, produziu menos. Isso ajuda a explicar por que só oferecer sombra e água gelada nem sempre recupera 100% da produção perdida.

Na prática, isso significa que estratégias de mitigação funcionam melhor quando combinadas: ventilação forçada associada a aspersão de água sobre o dorso do animal, acesso constante a água fresca e sombra adequada (idealmente mais de 3,5 metros quadrados por vaca em sistemas de confinamento), além de ajustes na dieta pra compensar a menor ingestão, como aumentar a densidade energética da ração sem sobrecarregar o rúmen.

Rebanho de bovinos leiteiros buscando sombra sob árvore no pasto

Monitorar o ITU da região e observar sinais comportamentais (respiração ofegante, procura ativa por sombra, aglomeração em torno dos bebedouros) continua sendo a forma mais barata de antecipar perdas antes que elas apareçam no boletim de produção do mês.

Deixe uma resposta

Compartilhar

Share on facebook
Facebook
Share on linkedin
LinkedIn
Share on telegram
Telegram
Share on whatsapp
WhatsApp

TAMBÉM QUER SEU ANÚNCIO AQUI? ENTRE EM CONTATO

Translate »