Tem produtor que divide o pasto em piquetes, bota o gado pra rodar entre eles e chama isso de pastejo rotacionado. Só que dividir área não é a parte difícil. O que realmente decide se o sistema funciona é o período de descanso, o tempo que cada piquete fica sem animal até a planta se recuperar o suficiente pra ser pastejada de novo. Errar esse número, pra mais ou pra menos, joga fora boa parte do ganho que a rotação deveria trazer.

A lógica vem de André Voisin, mas a aplicação é tropical
O francês André Voisin formulou nos anos 1950 os princípios do pastejo racional, e um deles é direto: o tempo de descanso tem que respeitar o tempo que a planta leva pra restaurar suas reservas e emitir folhas novas. O problema é que esse tempo muda completamente dependendo do capim e da estação. Aplicar a mesma regra de descanso o ano inteiro, num país com estação seca marcada como o Brasil, é um dos erros mais comuns que vejo em propriedades que dizem fazer rotação e na prática só estão fazendo divisão de área.
O método das três folhas
Os trabalhos de Sila Carneiro da Silva, da ESALQ USP, e antes dele Moacyr Corsi, ajudaram a consolidar no Brasil o critério do estágio de três folhas por perfilho como referência pra saber quando um piquete está pronto pra ser pastejado de novo. Gramíneas tropicais como as braquiárias e os panicuns emitem folhas em intervalos regulares, e quando o perfilho atinge a terceira folha completamente expandida, as reservas de carboidrato já foram restauradas e a planta atingiu o ponto de máximo acúmulo de forragem de qualidade. Pastejar antes disso corta a planta ainda se recuperando. Deixar passar muito esse ponto significa perder folhas por senescência e acumular material fibroso que o animal rejeita.

Na prática, o número muda com a estação
Na época das águas, com calor e umidade favorecendo o crescimento, capins como o Marandu ou o Mombaça costumam atingir a terceira folha em 25 a 35 dias. Na seca, esse mesmo processo pode levar 45 a 60 dias ou simplesmente não acontecer, porque sem chuva a planta reduz drasticamente o crescimento independente de quanto tempo passe. Isso quer dizer que o número de piquetes e o tamanho do rebanho por área precisam ser pensados para as duas realidades, não só para a fase boa do ano. Muita gente monta o sistema pensando no verão e depois sofre quando a seca chega e o descanso que funcionava vira insuficiente.

A altura de saída importa tanto quanto a de entrada
Descanso calculado certo não salva o piquete se os animais ficarem tempo demais ali dentro rapando a planta até o solo. A altura de resíduo pós-pastejo precisa preservar os pontos de crescimento, as gemas basais de onde saem as novas folhas. Para a maioria das braquiárias isso fica em torno de 15 a 20 centímetros de resíduo, para os panicuns um pouco mais alto. Sair desse limite compromete a rebrota mesmo que o período de descanso seguinte esteja correto no papel. É o conjunto, entrada, permanência curta e saída no ponto certo, que faz o sistema funcionar ano após ano sem degradar a pastagem.