Calor Extremo Mata Até 90% da Safra de Ostras em Santa Catarina

O mar esquentou demais e a conta chegou para quem vive de ostras em Santa Catarina. Em abril de 2026, produtores das baías Norte e Sul de Florianópolis viram a água do mar bater 34°C em alguns pontos, uma temperatura muito acima do que esses moluscos conseguem tolerar por muito tempo. O resultado foi uma mortalidade que, em algumas fazendas marinhas, chegou a 90% da safra.

Santa Catarina não é só mais um estado produtor. É de lá que sai cerca de 97% de toda a produção nacional de moluscos, entre ostras, mexilhões e vieiras. Quando o calor castiga a costa catarinense, castiga praticamente a maricultura do Brasil inteiro.

O que aconteceu na água

Segundo Vinicius Marcus Ramos, presidente da Federação das Associações de Maricultores de Santa Catarina (Feasc), o problema não foi um evento isolado de um dia quente. Foram semanas de temperatura do mar acima do normal, num período em que as ostras já estavam em fase de engorda, mais sensíveis a qualquer estresse ambiental. Com a água mais quente, cai o oxigênio dissolvido, e as ostras literalmente sufocam nas próprias estruturas de cultivo.

O aquicultor Lincoln Venâncio, que cultiva na região, relatou que em alguns lotes a mortalidade foi quase total. Ele precisou retirar as estruturas vazias, recalcular o que ainda tinha para vender e enfrentar um prejuízo que, somado entre os produtores afetados, as entidades do setor estimam acima de R$ 8 milhões só nesta safra.

Maricultores trabalhando em embarcação na baía catarinense durante colheita de moluscos

Por que isso preocupa o setor inteiro

A ostreicultura catarinense é formada majoritariamente por pequenos produtores familiares, muitos deles organizados em cooperativas na região da Grande Florianópolis. Para esse perfil de produtor, uma perda de 90% não é um número abstrato de relatório, é a renda do ano que não vai entrar.

Alguns pontos que os próprios maricultores e a Feasc têm levantado como mais urgentes:

  • Falta de um sistema de alerta antecipado de temperatura da água para os produtores reagirem a tempo, afundando ou movendo as estruturas de cultivo;
  • Ausência de linhas de crédito e seguro agrícola específicas para maricultura, diferente do que já existe para lavouras;
  • Necessidade de estudar variedades de ostras mais tolerantes ao calor, algo que já é pesquisado para outras espécies aquáticas no país;
  • Risco de êxodo de produtores mais jovens da atividade, caso episódios como este se repitam nos próximos verões.

Instituições como a Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina) e a UFSC acompanham o litoral catarinense há anos monitorando a qualidade da água e as condições de cultivo, e o episódio de 2026 deve entrar no radar de novos estudos sobre como o aumento da temperatura do mar afeta a maricultura brasileira nos próximos anos.

Pessoas na orla observando área de cultivo de moluscos no litoral sul do Brasil

O que fica de lição para quem cultiva no litoral

Para quem trabalha com aquicultura marinha, o episódio catarinense serve de alerta mesmo fora de Santa Catarina. Ostras, mexilhões e outros moluscos de cultivo dependem diretamente da qualidade da água do mar, e não têm para onde fugir quando as condições pioram, ao contrário de um animal terrestre que pode ser movido para a sombra ou receber água fresca.

Produtores de outras regiões costeiras do Brasil, como o litoral do Paraná e da Bahia, que também vêm investindo em maricultura, vão acompanhar de perto como o setor catarinense se recupera e quais medidas de proteção saem desse episódio. A expectativa da Feasc é que o caso ajude a acelerar discussões sobre política pública voltada à maricultura, um setor que ainda tem muito menos estrutura de apoio do que a pecuária ou a agricultura de grãos.

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