Síndrome do Colapso das Colônias Nunca Foi Confirmada no Brasil, Mostra Estudo da Embrapa

Nos Estados Unidos, a Síndrome do Colapso das Colônias (CCD) é um problema bem definido desde os anos 2000: colmeias inteiras ficam vazias, sem abelhas mortas por perto, sem sinais de doença clara, só o enxame que desaparece. No Brasil, o nome circula há anos para explicar qualquer perda grande de colmeias. O problema é que, segundo um estudo de referência da Embrapa, isso nunca foi comprovado por aqui.

O que a Embrapa encontrou ao investigar

O levantamento é de Carmen Pires e outros pesquisadores, publicado em 2016 na revista Pesquisa Agropecuária Brasileira (volume 51, número 5), da própria Embrapa. Os autores reuniram os principais registros de perdas de colônias no país e procuraram alguma correspondência com os critérios usados para diagnosticar CCD nos Estados Unidos e na Europa. A conclusão foi que, das mortalidades em massa registradas, nenhuma preencheu de fato os critérios da síndrome. Só dois casos chegaram perto.

Apicultor retirando quadro de madeira com abelhas para inspeção em dia de verão

Os dois casos que mais se pareceram com CCD

O primeiro aconteceu em Altinópolis, no interior de São Paulo, em 2010, envolvendo abelhas africanizadas. Os apiários ficavam em áreas de cana-de-açúcar e eucalipto, com uso relatado de neonicotinoides e fipronil, e as crias apareciam amareladas ou amarronzadas. Ainda assim, a causa nunca foi estabelecida com segurança. O segundo veio da região Sudeste em 2007: amostras foram enviadas ao USDA, nos Estados Unidos, e a análise não encontrou associação com CCD.

O que realmente está matando as colmeias brasileiras

Pesquisas citadas no mesmo levantamento (Teixeira et al., 2008 e 2012) analisaram quase 2 mil abelhas e encontraram três vírus diferentes circulando, com 43 casos de coinfecção. O fungo microsporídio Nosema apareceu em 79% de 637 amostras coletadas em dez estados, quase todas (98,82%) do tipo Nosema ceranae. Em Santa Catarina, 24 notificações de perda foram atendidas, e um levantamento de 2012 chegou a monitorar 18 apiários e analisar mais de 500 amostras. Nenhum desses agentes isolados explica, por si só, um colapso no padrão da CCD, mas juntos ajudam a entender por que colmeias enfraquecem e morrem.

  • Vírus ABPV, BQCV e DWV circulando ao mesmo tempo em parte das colônias analisadas
  • Nosema ceranae presente em quase 8 de cada 10 amostras testadas
  • Venda de agrotóxicos no Brasil subiu 194% entre 2000 e 2012, período dos principais registros de perda
  • Ausência de um sistema oficial de monitoramento ou cadastro de apicultores para medir o problema em escala nacional
Apicultor anotando dados de colmeias ao lado de apiário em dia ensolarado

A diferença de escala com os Estados Unidos

A comparação ajuda a entender por que o termo é usado com tanta cautela pelos pesquisadores brasileiros. Nos Estados Unidos, o ano de 2007 registrou perda de cerca de 30% das colônias, o equivalente a 750 mil colmeias, das quais aproximadamente 325 mil foram atribuídas especificamente à CCD. Em 2014, a perda média anual chegou a 43%. No Brasil, o estudo da Embrapa não encontrou volume ou padrão clínico comparável, apesar de relatos recorrentes de apicultores sobre enfraquecimento de colônias, principalmente em áreas de monocultura com uso intenso de defensivos.

Por que o diagnóstico certo importa para quem cria abelhas

Chamar qualquer perda de colmeia de CCD sem confirmação pode mascarar causas tratáveis, como infecção por Nosema, exposição a um agrotóxico específico ou manejo inadequado durante a entressafra. Os próprios autores do estudo apontam a falta de um sistema oficial de monitoramento como o maior obstáculo para saber, de fato, o tamanho do problema no país. Até que esse diagnóstico melhore, o caminho mais seguro para quem depende da apicultura é investigar cada perda de colônia caso a caso, com apoio de um médico veterinário ou da extensão rural, em vez de atribuir o prejuízo a uma síndrome que, pelos dados disponíveis, ainda não tem um caso confirmado em solo brasileiro.

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