Um cavalo que começa a tropeçar nos próprios cascos, com o focinho e o pescoço se contraindo sem motivo aparente, está dando um dos primeiros sinais de uma doença que o Brasil trata com notificação imediata ao Ministério da Agricultura e Pecuária: a febre do Nilo Ocidental. É uma arbovirose transmitida por mosquitos do gênero Culex, e em cavalos ela mata entre 25% e 44% dos infectados, segundo nota técnica do Conselho Regional de Medicina Veterinária de São Paulo. Não existe vacina aprovada para uso no país, o que torna o reconhecimento precoce dos sinais e a vigilância epidemiológica as principais ferramentas de defesa do produtor.
O Primeiro Caso Confirmado no Brasil
O vírus já circulava silenciosamente antes de ser identificado oficialmente. Evidências sorológicas em cavalos do Pantanal, no Mato Grosso do Sul, apontam para uma circulação do vírus desde 2009. Mas foi só em 2018 que o Brasil confirmou e tipificou o primeiro caso, em equídeos com sinais neurológicos no Espírito Santo. No ano seguinte, o vírus voltou a aparecer no mesmo estado, e também surgiram registros em Minas Gerais, onde uma potra desenvolveu corioretinite e perdeu a visão, além de casos em São Paulo e no Ceará. Há ainda relatos sorológicos na Paraíba e no Piauí, o que sugere uma circulação bem mais ampla do que os casos clínicos confirmados deixam ver.
Os Sinais Que Indicam Febre do Nilo Ocidental em Cavalos
O período de incubação vai de 3 a 15 dias, e só entre 10% e 40% dos animais infectados chegam a manifestar sinais clínicos visíveis. Quando aparecem, os sinais mais característicos são:
- Ataxia nos membros pélvicos, com o cavalo perdendo a coordenação dos passos traseiros
- Contrações involuntárias do focinho, do lábio inferior, do pescoço, dos ombros e dos músculos peitorais, que podem ser uni ou bilaterais
- Depressão ou, ao contrário, hipersensibilidade exagerada a estímulos externos
- Opistótono, com a cabeça e o pescoço se curvando para trás de forma anormal
- Decúbito lateral, quando o animal não consegue mais se manter em pé
- Em casos graves, coma seguido de morte
Qualquer um desses sinais, isolado ou combinado, já justifica chamar um médico veterinário com urgência e considerar a febre do Nilo Ocidental como diagnóstico diferencial, principalmente em regiões onde já houve casos confirmados.
Letalidade Alta e Sequelas em Quem Sobrevive
A letalidade de 25% a 44% já seria motivo suficiente de atenção, mas o problema não termina para os cavalos que sobrevivem à fase aguda. Cerca de 40% dos sobreviventes ficam com sequelas permanentes, como alteração na marcha e mudanças de comportamento que podem comprometer o uso do animal para trabalho, esporte ou reprodução. Isso coloca a doença num patamar diferente de outras encefalites equinas: mesmo quem não morre, frequentemente não volta a ser o mesmo animal.
Por Que é Notificação Obrigatória ao MAPA
A febre do Nilo Ocidental está classificada na categoria 1 da Instrução Normativa nº 50/2013 do Ministério da Agricultura e Pecuária, o que exige notificação imediata ao Serviço Veterinário Oficial diante de qualquer suspeita clínica, não apenas após a confirmação laboratorial. A doença também é zoonótica: em humanos, a Portaria nº 782/2017 do Ministério da Saúde a classifica como de notificação compulsória imediata. Essa dupla exigência, tanto na saúde animal quanto na saúde humana, reflete o conceito de Saúde Única, já que aves silvestres funcionam como reservatório do vírus e mosquitos Culex fazem a ponte entre aves, cavalos e pessoas.
Não Existe Vacina no Brasil: o Que Fazer Para Proteger o Plantel
Nos Estados Unidos, o USDA já aprovou vacinas contra o vírus do Nilo Ocidental para uso equino. No Brasil, nenhuma delas foi liberada até agora, o que deixa o controle do mosquito vetor como principal linha de defesa disponível ao criador. Entre as medidas que fazem diferença estão:
- Eliminar criadouros de mosquito ao redor das instalações, como água acumulada em pneus, calhas e vasilhames
- Usar repelentes e telas de proteção em baias, especialmente no período do crepúsculo, quando o Culex está mais ativo
- Evitar deixar os animais em pastagens próximas a áreas alagadas no fim da tarde e à noite
- Manter vigilância clínica constante e comunicar qualquer sinal neurológico ao serviço veterinário oficial sem demora
- Em regiões com histórico de casos, considerar exames sorológicos periódicos como parte do monitoramento do plantel
A febre do Nilo Ocidental não é uma ameaça distante nem exclusiva de outros países. Desde 2018 ela tem um histórico documentado em pelo menos quatro estados brasileiros, e a ausência de vacina comercial no país torna o manejo preventivo do ambiente, junto com a notificação rápida de sinais suspeitos, a defesa mais concreta que o setor equestre tem hoje.