Em um rebanho experimental da Embrapa Pecuária Sudeste, em São Carlos (SP), existe uma população de Haemonchus contortus que não responde a nenhum vermífugo comercial disponível no mercado. Esse verme, popularmente conhecido como verme-do-estômago ou barber pole worm, suga sangue do abomaso das ovelhas e é uma das principais causas de anemia, perda de peso e morte em rebanhos ovinos no Brasil. Diante de uma resistência generalizada, pesquisadores da Embrapa testaram uma estratégia diferente de simplesmente trocar o princípio ativo do medicamento: eles substituíram o próprio parasita.
Um Parasita Que Não Responde a Nenhum Vermífugo Comercial
O ponto de partida do estudo, conduzido por Hornblenda Joaquina Silva Bello e colegas, entre eles Sérgio Novita Esteves e Ana Carolina de Souza Chagas, foi uma população de campo de Haemonchus contortus já resistente a todos os anti-helmínticos comerciais testados. Em testes isolados de redução da contagem de ovos por grama de fezes, o albendazol sozinho não apresentou nenhuma eficácia nas matrizes do experimento, enquanto o levamisol isolado chegou a 81%. Isso mostra o tamanho do problema: um produtor que confia apenas na rotação entre dois ou três princípios ativos pode estar tratando o rebanho sem efeito real nenhum, gastando dinheiro com medicamento que o verme simplesmente ignora.
A Técnica da Substituição Parasitária
Em vez de buscar uma nova droga, a equipe testou substituir a população resistente por um isolado de Haemonchus contortus conhecido e suscetível aos anti-helmínticos, identificado como Echevarria1991. Os animais do experimento foram desverminados, depois infectados artificialmente com esse isolado suscetível e mantidos em pastagem. A lógica é direta: se a maior parte dos vermes na pastagem volta a ser suscetível, o tratamento com os vermífugos comerciais recupera a eficácia, porque não está mais competindo apenas contra indivíduos resistentes.
Os Resultados: de 85% Para 97% de Eficácia
Os números confirmam a lógica. No teste de redução da contagem de ovos realizado 50 dias após a infecção das matrizes, usando a combinação de albendazol com levamisol, a eficácia do tratamento foi:
- 85% no grupo controle, sem substituição parasitária
- 92% no grupo com substituição parcial do parasita
- 97% no grupo com substituição total do parasita
Passar de um cenário em que o albendazol isolado não tinha efeito nenhum para uma combinação de drogas com 97% de eficácia, no grupo de substituição total, mostra o quanto a composição da população parasitária na pastagem pesa tanto quanto a escolha do medicamento em si.
O Ganho de Peso Que Comprova o Efeito
O estudo também mediu o impacto da técnica no desempenho dos animais, e a diferença apareceu na balança. O grupo com substituição total registrou ganho médio de 25 kg, contra 21,9 kg no grupo com substituição parcial e 19,7 kg no grupo controle. Segundo os autores, essa diferença foi estatisticamente significativa, o que reforça que o controle mais eficaz do parasita se traduz diretamente em mais carne produzida por animal, não é só um número de laboratório.
O Que Isso Significa Para o Produtor
A substituição parasitária ainda é uma técnica em fase de avaliação, e os próprios pesquisadores informam que o efeito continuará sendo acompanhado por mais duas estações de monta das ovelhas antes de conclusões definitivas. Mas o recado já vale para quem cria ovinos hoje: se um vermífugo que sempre funcionou começa a falhar, o problema pode não estar na dose ou na marca do produto, e sim numa população de Haemonchus contortus que a propriedade já selecionou para resistência, tratamento após tratamento. Fazer testes de eficácia periódicos e evitar depender de um único princípio ativo continuam sendo as medidas mais acessíveis enquanto estratégias como essa avançam para uso comercial.