Pergunte a alguém de fora do Norte quem lidera a criação de búfalos no Brasil e é bem provável que a resposta erre feio. Não é o Rio Grande do Sul, não é Minas Gerais. É o Pará, e por uma margem que mais parece domínio do que liderança: segundo dados do IBGE divulgados pela Sedap, o estado concentra 546.777 cabeças, o equivalente a 38,13% de todo o rebanho bubalino nacional, que soma 1.434.141 animais.

Mais de um terço do rebanho nacional em um único estado
Esse tipo de concentração não é comum em nenhuma outra cadeia da pecuária brasileira. O Pará não apenas lidera, ele responde por mais de um terço de todos os búfalos do país. E a tendência, segundo o mesmo levantamento, é de crescimento: o rebanho paraense cresceu 5,34% em relação ao ano anterior, enquanto boa parte da pecuária convencional brasileira enfrenta oscilações bem menores.
A explicação está no ambiente. Búfalo não compete com o gado bovino pelas mesmas pastagens secas; ele se dá bem exatamente onde o boi sofre, em áreas alagadas, várzeas e campos inundáveis que dominam boa parte do estado. Onde outras espécies enxergam limitação, o búfalo encontra o habitat ideal.
O papel central do Marajó
Dentro do Pará, a história se concentra ainda mais em uma única região: o Marajó. Os municípios com maior participação no rebanho estadual são Chaves, com 32,09% do total, Soure, com 15,41%, e Cachoeira do Arari, com 8,15%. Somados, esses três municípios marajoaras respondem por mais da metade de todos os búfalos do Pará.
Não é exagero dizer que o búfalo moldou a paisagem e a economia do arquipélago. Ele chega onde estrada não chega, atravessa áreas que ficam meses sob água e ainda assim segue produzindo leite e carne com uma rusticidade que poucas raças bovinas sustentariam no mesmo ambiente.

Por que isso importa para quem está fora do Pará
A bubalinocultura brasileira ainda é pequena se comparada à bovinocultura, mas ela resolve um problema que o boi não resolve: ocupar produtivamente terras que, de outra forma, ficariam ociosas boa parte do ano. Isso se reflete em produtos de nicho que crescem de valor, como:
- Leite de búfala, usado na produção de muçarela de búfala, com teor de sólidos e gordura superior ao leite bovino
- Carne bubalina, mais magra e com menor teor de colesterol, vendida como diferencial em alguns mercados regionais
- Búfalos de tração, ainda usados em trabalho agrícola em áreas de várzea onde máquina pesada não entra

O dado de 38% concentrado em um único estado chama atenção justamente porque mostra uma cadeia produtiva regional forte o suficiente para sustentar economia local sem depender do modelo convencional de pecuária. Enquanto o Brasil discute intensificação e genética bovina, o Marajó segue fazendo o que faz há gerações: colocar o búfalo para trabalhar onde mais ninguém consegue.