Búfalos no Marajó: Como o Brasil Criou o Maior Rebanho Bubalino das Américas

Tem uma cena que resume bem a Ilha de Marajó, no Pará: búfalos andando pelas ruas de Soure como se fossem carros, usados até por policiais em patrulha. Não é folclore. É resultado de mais de um século de adaptação de um animal que, em vez de competir com o boi, ocupou um espaço que o boi não conseguia.

Rebanho de búfalos aquáticos nadando em várzea

Por que o búfalo prospera onde o boi não aguenta

Marajó é a maior ilha fluviomarinha do mundo, com boa parte do território alagada boa parte do ano. Nessas condições, bovinos comuns sofrem com casco amolecido, parasitas e dificuldade de locomoção na lama. O búfalo, por outro lado, tem casco mais largo, pele mais resistente à umidade e um comportamento natural de se deslocar e até se alimentar em áreas encharcadas. Onde o boi atola, o búfalo passa andando.

A Embrapa Amazônia Oriental, em Belém, mantém pesquisa contínua sobre bubalinocultura na região desde que os primeiros núcleos de melhoramento genético bubalino foram instalados no estado, reunindo dados sobre desempenho reprodutivo e produção de leite e carne das principais raças usadas no Brasil, como Murrah e Mediterrâneo.

Rebanho de búfalos caminhando por área de pastagem alagada

Mais do que carne: leite, queijo e até transporte

No Pará, o búfalo não é só gado de corte. O leite bubalino, mais rico em sólidos totais e gordura que o leite bovino, é a base do queijo tipo mozarela de búfala produzido em escala artesanal e também comercial na região, com destaque para produtores de Soure e Salvaterra. A carne bubalina, por sua vez, tem menos colesterol e gordura que a carne bovina equivalente, característica que vem sendo usada em campanhas de valorização do produto em mercados urbanos do Pará.

A Universidade Federal Rural da Amazônia, a UFRA, também concentra pesquisa em reprodução e manejo bubalino, incluindo estudos sobre taxa de prenhez em diferentes sistemas de monta no clima equatorial amazônico, que é bem diferente do clima onde a bubalinocultura se originou na Ásia.

Búfalos se refrescando em canal de água durante o dia

O maior rebanho das Américas, e ainda pouco conhecido

O Pará concentra o maior rebanho bubalino do Brasil e das Américas, boa parte dele distribuído entre as fazendas de Marajó. Ainda assim, fora da região amazônica, pouca gente sabe que esse animal existe em escala comercial no país, muito menos que ele resolve um problema de manejo que o boi simplesmente não resolve. Isso talvez explique por que a bubalinocultura segue sendo tratada como curiosidade regional, e não como o que realmente é: uma solução zootécnica bem adaptada a um bioma específico.

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