É IMPORTANTE CONHECER A DEGRADABILIDADE DA MATÉRIA SECA E DA FIBRA DAS FORRAGENS?

No desempenho produtivo de ruminantes de alta exigência nutricional, a degradabilidade da matéria seca e da fibra em detergente neutro (FDN) são importantes parâmetros de avaliação de alimentos das dietas, pois, por deterem relações com o potencial de ingestão de matéria seca e de nutrientes, podem complementar o entendimento sobre o impacto da inclusão de um ingrediente sobre a produção.

“E de que forma isso pode afetar a produção animal?” A substituição de 60% da silagem de milho por cana-de-açúcar resultou em queda no consumo de matéria seca (MS) e na produção de leite, sendo maior a produção com a menor inclusão de cana avaliada, 40 % na MS da dieta (COSTA et al., 2005). Assim, a degradabilidade da fibra das forragens pode ser um entrave para alcançar altas produções de leite (OLIVEIRA, et al., 2011).

Por outro lado, novilhas Holandesa alimentadas com níveis crescentes de FDN cana-de-açúcar (até 42%), em substituição a silagem de milho, não tiveram seu desempenho afetado. A dieta com maior inclusão de cana viabilizou a meta de ganho de peso compatível o primeiro parto aos 24 meses de idade com 550 Kg de peso vivo (GALLO et al., 2019). A exigência nutricional da categoria animal parece ser determinante para observar ou não os efeitos potencialmente negativos obtidos com o maior consumo de forragem de pior degradabilidade da fibra.

É essencial a percepção de que alimentos com menor degradabilidade não são exatamente ruins, mas são mais adequados para categorias menos exigentes nutricionalmente. Isso ressalta o papel do zootecnista, enquanto especialista no conjunto de processos bioquímicos que constituem a nutrição animal. Tais conhecimentos embasam as decisões durante a formulação de dietas, uma vez que existem objetivos maiores com esta ação: Aumentar a lucratividade da atividade pecuária e promover saúde nos animais.

O fator quantitativo também deve ser objeto de ponderação. Arelovich et al. (2008) verificaram que o consumo de matéria seca pode ser negativamente afetado pela elevação do teor de FDN (de 22,2% para 45,8%) em dietas de vacas leiteiras de alta produção. Assim, é importante considerar que o efeito negativo não é regra, pois não somente o fator qualitativo da fibra é determinante, mas também o quantitativo (variações no consumo de FDN).

“Mas, o que causa as diferenças qualitativas entre a fibra das forragens?” Dietas formuladas com forragens tropicais (C4) tem degradabilidade com maior amplitude em comparação as forragens de clima temperado (C3), mesmo com teor de FDN semelhante (HARPER & MCNEILL, 2015). Até entre gramíneas de mesmo cultivar, diferenças no momento de colheita podem causar piora em sua composição bromatológica. Além das diferenças inerentes ao metabolismo das espécies forrageiras, a maturação, fatores ambientais como temperatura, luz e disponibilidade de água tem influência para a magnitude da depreciação qualitativa da fibra (JUNG, 2015).

“Existem formas de minimizar estes resultados negativos?”. Usando como exemplo o caso da cana, Siécola Júnior et al. (2014) obtiveram melhoria de desempenho animal com o aumento da proporção de colmos em detrimento da palhada. A despalha melhorou a digestibilidade da matéria seca em até 17 unidades percentuais, e aumentou o consumo de matéria seca, contribuindo para aumento de ganho de peso de 270 g/dia em novilhas.

 Em outro estudo, a degradabilidade da MS e FDN em 24 horas de incubação de componentes da planta (Colmo integral, colmo descascado, casca e ponteira) de 8 variedades de cana-de-açúcar foi avaliada. Verificou-se que o descascamento causou aumento de na degradabilidade da MS e da FDN do colmo descascado, uma vez que um componente rico em fibra não degradável (FDNi), a casca, foi removido. Desse modo, o processamento físico da forragem, com a remoção de componentes de pior qualidade, é uma alternativa para causar melhorias qualitativas e repercutir positivamente com ganhos em produtividade (DAMASCENO et al., 2018).

Ao consultar a literatura acerca deste assunto, o leitor pode se deparar com ensaios de degradabilidade realizados em diferentes tempos de incubação, sejam in situ (a partir de incubações no rúmen) ou in vitro. As diferenças de tempo permitem avaliar o quão lenta é a degradação de uma determinada fração do alimento, ou o quão rápido ele é digerido e torna-se passível de absorção. Já o método pode influenciar na magnitude dos valores obtidos, mas os efeitos representados em cada um deste tendem a ser semelhantes (é como tirar fotos das mesmas coisas, mas com modelos de câmeras com definições distintas).

Em outras palavras, a degradabilidade da matéria seca indica a velocidade de liberação de frações de mais rápida degradação, enquanto que a degradabilidade da fibra tem maior relação com a velocidade de degradação dos constituintes da fibra do alimento.

Portanto, é significativa a importância da degradabilidade da matéria seca e da FDN para a avaliação da inclusão de forragens na dieta, especialmente de categorias de elevada exigência nutricional, utilizada em conjunto com outros parâmetros, tais como: o teor de FDN, o estágio vegetativo da forragem,  a proporção volumoso:concentrado, a categoria animal (e o seu nível de exigência nutricional) e as metas de desempenho do sistema em questão.

REFERÊNCIAS

ARELOVICH, H.M.; ABNEY, C.S.; VIZCARRA, J.A. et a. Effects of dietary neutral detergent fiber on intakes of dry matter and net energy by dairy and beef cattle: Analysis of published data. The Professional Animal Scientist, v.24, p.375–383, 2008.

COSTA, G. M.; CAMPOS, J. M. S.; FILHO, S. C. V et al. Desempenho produtivo de vacas leiteiras alimentadas com diferentes proporções de cana-de-açúcar e concentrado ou silagem de milho na dieta. Revista Brasileira de Zootecnia, v.3 n.6, 2005.

DAMASCENO, P. J. S; LEITE, M. L; COSTA P. M. et al. Degradabilidade da MS e da FDN dos componentes da planta da cana-de-açúcar de primeiro ciclo cultivada em sequeiro. In: Congresso Nordestino de Produção Animal, 7., 2018, João Pessoa. Anais do Congresso Nordestino de Produção Animal. Areia: SNPA, 2018. p.535.

GALLO, P. C. S.; PEREIRA, M. N.; CAMPOS, G. P. et al. Effects of neutral detergent fiber concentration of sugarcane-based diets on the performance of Holstein heifers.Semina: Ciências Agrárias, v.40, n.2, p.947-956, 2019.

HARPER, K.J. & MCNEILL, D.M. The Role iNDF in the Regulation of Feed Intake and the Importance of Its Assessment in Subtropical Ruminant Systems (the Role of iNDF in the Regulation of Forage Intake). Agriculture, v.5, p.778-790, 2015.

JUNG, H.G.  Forage  Digestibility:  The  Intersection  of  Cell  Wall  Lignification  and Plant Tissue Anatomy. Disponível online: http://dairy.ifas.ufl.edu/rns/2012/12jungrns2012.pdf (acessado em 30 julho 2019).

OLIVEIRA, A. S.; DETMANN, E.; CAMPOS, J.M.S. et al. Meta-análise do impacto da fibra em detergente neutro sobre o consumo, a digestibilidade e o desempenho de vacas leiteiras em lactação. Revista Brasileira de Zootecnia, v.40, n.7, p.1587-1595, 2011.

SIÉCOLA JÚNIOR, S.; BITENCOURT, L.L.; MELO, L.Q. et al. Despalha da cana-de-açúcar e desempenho de novilhas e vacas leiteiras. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, v.66, n.1, p.219-228, 2014.

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