Muda de Penas em Aves de Produção: O Que Muda no Metabolismo da Ave

Todo produtor de postura já passou por isso: de uma hora para outra, a produção de ovos despenca, as aves ficam com aspecto desgrenhado e o galpão parece mais silencioso que o normal. Não é doença. É muda de penas, um processo natural que a genética das aves carrega há muito mais tempo do que a avicultura comercial existe, e que ainda assim continua pegando gente de surpresa.

Detalhe de penas de ave mostrando textura durante o processo de muda

Por que a ave troca de penas

Pena é queratina, a mesma proteína estrutural da unha e do casco. Com o uso, ela desgasta, perde a capacidade de isolamento térmico e some parte da função de voo (nas espécies que voam). Por isso as aves renovam a plumagem pelo menos uma vez por ano, normalmente disparada pela redução do fotoperíodo, os dias mais curtos do outono sinalizando ao organismo que é hora de parar de investir energia na postura e reinvestir na plumagem.

A sequência costuma seguir um padrão: cabeça e pescoço primeiro, depois costas, peito, e por último as penas de voo nas asas e na cauda. Uma ave gravemente estressada pode até perder penas fora de ordem, mas em condições normais dá para acompanhar o estágio da muda só olhando para o lote.

Penas de ave em close-up, estrutura renovada durante o processo de muda

O custo metabólico que ninguém vê na planilha

Formar uma pena nova consome proteína, energia e minerais, os mesmos recursos que o ovário usa para produzir ovo. O corpo da ave não faz as duas coisas ao mesmo tempo com eficiência, então o eixo hormonal que sustenta a ovulação regride, o ovário reduz de tamanho e a postura cai a praticamente zero durante semanas. É trade-off metabólico puro: penas ou ovos, não os dois com qualidade.

Nesse período a ave também costuma perder peso corporal, entre 20% e 30% dependendo da intensidade da muda, principalmente às custas de gordura e um pouco de massa magra. Isso não é acidente do processo, é parte dele: a perda de peso está associada à reativação do eixo reprodutivo quando a muda termina, e lotes que não perdem peso suficiente tendem a voltar à postura de forma mais lenta e menos sincronizada.

A polêmica histórica da muda induzida por jejum

Por décadas, granjas comerciais de postura induziram a muda de forma artificial para sincronizar o lote inteiro e ganhar um segundo ciclo produtivo da mesma ave, sem precisar descartar e repor pintinhas. O método clássico era jejum total, cortar ração por 5 a 14 dias, às vezes junto com redução da água e da luz, forçando o corpo a entrar em muda pelo estresse nutricional.

O problema é que jejum total aumenta mortalidade, suprime o sistema imune e deixa a ave mais vulnerável à Salmonella, o que levantou questionamentos sérios de bem-estar animal a partir dos anos 2000. Patricia Hester, pesquisadora da Purdue University que dedicou boa parte da carreira a estudar métodos alternativos de indução de muda, publicou trabalhos mostrando que programas baseados em dietas de baixa densidade energética (rações com alto teor de fibra, como as à base de alfafa, ou dietas com baixo teor de sódio) conseguem induzir a muda com perda de peso equivalente e mortalidade bem menor do que o jejum total.

Foi em boa parte por causa desse tipo de evidência que a United Egg Producers, nos Estados Unidos, passou a restringir o jejum total em seus programas de certificação de bem-estar, empurrando o setor para as dietas alternativas. No Brasil, produtores que ainda praticam muda induzida seguem majoritariamente essa linha, com restrição alimentar parcial em vez de corte total de ração.

Galinhas poedeiras em galpão de produção

O que observar no manejo durante a muda

Água nunca pode faltar, mesmo em programas de restrição alimentar, porque desidratação some com qualquer ganho de bem-estar que a dieta alternativa trouxe. O monitoramento de peso corporal semanal ajuda a saber se a muda está evoluindo dentro do esperado, e a redução do fotoperíodo (geralmente para 8 horas de luz por dia) é o gatilho que sustenta o processo do início ao fim.

Vale ficar de olho também na qualidade da cama e na ventilação, já que aves com plumagem reduzida perdem calor mais rápido e ficam mais sensíveis a variações de temperatura no galpão. Depois de 6 a 10 semanas, dependendo do programa adotado, o lote retoma a postura, normalmente com casca de ovo mais firme e melhor conversão do que no ciclo anterior. É esse ganho no segundo ciclo que justifica, do ponto de vista produtivo, todo o trabalho de conduzir a muda com cuidado.

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