Mais da metade do pescado produzido em cativeiro no Brasil hoje sai de um único peixe: a tilápia responde por cerca de sessenta e oito por cento de toda a produção nacional de piscicultura, segundo dados do setor compilados pela Band Agro. Nenhuma outra espécie chega perto desse domínio, e entender por que a tilápia virou essa espécie de monocultura aquática ajuda a entender também para onde a aquicultura brasileira está indo.

Por que a tilápia venceu a disputa por espaço no viveiro
A tilápia cresce rápido, tolera uma faixa relativamente ampla de qualidade de água, aceita bem ração formulada, e tem carne branca de sabor suave que conquistou tanto o consumidor doméstico quanto mercados de exportação. Essa combinação de crescimento acelerado com baixa exigência de manejo especializado reduz o risco do investimento para o produtor, o que explica por que tanto pequenos piscicultores quanto grandes empresas do agronegócio apostaram pesado na espécie nas últimas décadas, enquanto espécies nativas como o tambaqui e o pirarucu, apesar do potencial e do valor agregado maior, ainda enfrentam desafios de escala produtiva e de cadeia de distribuição menos consolidada.

A meta ambiciosa que o Brasil ainda não alcançou
O setor de aquicultura brasileiro tem uma meta declarada de colocar o país entre os três maiores produtores mundiais de pescado até 2030, impulsionado justamente pelo crescimento da piscicultura de tilápia em regiões como o Sul, o Centro-Oeste e partes do Nordeste. É importante ser preciso aqui: essa posição ainda não foi alcançada, o Brasil está entre os principais produtores mundiais de tilápia especificamente, mas a meta de top três geral de pescado ainda depende de expansão contínua em escala e investimento em infraestrutura de processamento e logística, que hoje ainda representam um gargalo em várias regiões produtoras.
Os desafios que vêm junto com o crescimento
Expandir produção de tilápia em grande escala traz desafios que o setor ainda está aprendendo a gerenciar: manejo de qualidade de água em sistemas intensivos, controle sanitário para evitar a disseminação de doenças entre viveiros próximos, e a necessidade de licenciamento ambiental adequado para uso de recursos hídricos, especialmente em regiões onde a competição por água já é tema sensível entre diferentes usos agropecuários. Produtores que investem em boas práticas de biossegurança e em monitoramento constante da qualidade da água tendem a ter resultados mais consistentes e menos sujeitos a perdas repentinas por mortalidade em massa.

A piscicultura brasileira está num momento de expansão real, não só discurso de potencial. Mas entre o Brasil de hoje, forte produtor regional de tilápia, e o Brasil que quer estar entre os três maiores produtores de pescado do mundo, ainda existe uma distância que só investimento sustentado em infraestrutura, sanidade e diversificação de espécies vai conseguir fechar.