Nas últimas três a quatro semanas antes do parto, a ovelha prenhe de gêmeos ou trigêmeos entra num momento de altíssima exigência metabólica, e é exatamente aí que mora um dos maiores riscos da ovinocultura: a toxemia de prenhez. É uma doença metabólica que pode matar a matriz em poucos dias se não for identificada a tempo, e que pega muitos criadores de surpresa justamente por não parecer, à primeira vista, nada grave.

Por que o terço final da gestação é tão perigoso
No fim da prenhez, os fetos crescem rápido e ocupam cada vez mais espaço na cavidade abdominal da ovelha, comprimindo o rúmen e reduzindo a capacidade dela de ingerir volume de alimento. Ao mesmo tempo, a demanda de energia sobe bastante, principalmente quando há mais de um feto. Se a dieta não acompanha esse aumento de exigência, o organismo da ovelha começa a mobilizar gordura corporal de forma acelerada para suprir a energia que falta, e esse processo gera corpos cetônicos em excesso no sangue, o que caracteriza a toxemia.
A pesquisa em nutrição de pequenos ruminantes conduzida pela Embrapa Caprinos e Ovinos, em Sobral (CE), reforça um ponto central: o manejo nutricional no terço final de gestação precisa ser ajustado conforme o número de fetos que a ovelha está carregando, algo que só é possível saber com diagnóstico de gestação feito a tempo.

Os sinais que o produtor não pode ignorar
Ovelha que se isola do restante do rebanho, que para de se alimentar mesmo com comida disponível, que fica com o olhar parado e apresenta tremores ou andar cambaleante está dando sinais clássicos de toxemia. Em casos avançados, o animal pode ficar deitado e não conseguir mais se levantar sozinho. O problema é que, uma vez que os sintomas ficam visíveis, o quadro já costuma estar em estágio avançado, e a resposta ao tratamento cai bastante.
Isso torna a prevenção muito mais eficaz do que o tratamento. Fornecer uma dieta energeticamente mais concentrada nas últimas semanas de gestação, separar ovelhas gestando múltiplos de ovelhas gestando filhote único, e evitar qualquer período de jejum ou estresse nutricional brusco são medidas simples que reduzem drasticamente o risco de a doença aparecer.

O que fazer diante de um caso suspeito
Ao notar os primeiros sinais, a ação precisa ser rápida: contato imediato com o médico veterinário, fornecimento de fontes de energia prontamente disponíveis sob orientação profissional, e avaliação se o parto induzido ou a cesariana são necessários para salvar a matriz quando o quadro já está avançado. Em ovinocultura, toxemia de prenhez não é um problema raro ou distante, é um risco real em qualquer rebanho que trabalhe com matrizes de alta prolificidade, e conhecer os sinais antes que eles apareçam é o que separa um parto tranquilo de uma perda que poderia ter sido evitada.