Tem casos que a gente lê e pensa: isso não deveria ser possível. O caso da Nutratta Nutrição Animal é um deles. Uma fabricante de ração em Itumbiara, no sul de Goiás, acabou contaminando lotes inteiros de ração equina com uma substância que nem deveria estar perto de um saco de ração: a monocrotalina, um alcaloide tóxico presente em plantas do gênero Crotalaria. O resultado, segundo a atualização mais recente do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), foi de 284 cavalos mortos.
Como tudo começou
A primeira denúncia chegou pelo canal Fala.BR em 26 de maio, depois de mortes de cavalos em Elias Fausto, no interior de São Paulo. Na época ninguém sabia exatamente o que estava matando os animais. O Mapa foi a campo, e entre os dias 2 e 4 de junho uma equipe de fiscais inspecionou a fábrica da Nutratta em Goiás. O que encontraram não foi pouco: falhas graves de produção e de controle de qualidade. Só depois, em 25 de junho, as análises de laboratório confirmaram a presença de monocrotalina na ração.
Uma planta de adubo que se tornou veneno
O curioso (e trágico) nesse caso é a origem do problema. A Crotalaria é usada há décadas na agricultura brasileira como adubo verde e cobertura de solo, justamente por fixar nitrogênio e proteger o solo entre safras. Ninguém espera que ela acabe moída dentro de ração para cavalo. Mas foi exatamente isso que investigadores do Mapa encontraram: resíduos da planta contaminando a matéria-prima usada pela fábrica. A substância é proibida na alimentação animal há tempos, e por um bom motivo: ela ataca o fígado, e em equinos o efeito costuma ser fatal.
Por que a fábrica continua fechada
Depois da primeira confirmação, a Nutratta conseguiu na Justiça uma liminar para retomar parte da produção, desde que fosse para rações não destinadas a equídeos. Durou pouco. O Mapa reativou a suspensão total de forma cautelar, e a decisão que permitia a produção parcial foi revogada. Segundo o órgão, a empresa só volta a fabricar ração para qualquer espécie animal depois de comprovar, com documentação técnica, que corrigiu as irregularidades encontradas nas inspeções. Isso, até a última atualização, ainda não tinha acontecido.
- 284 cavalos mortos confirmados pelo Mapa, em Goiás e São Paulo
- Substância responsável: monocrotalina, de resíduos de Crotalaria na matéria-prima
- Fábrica em Itumbiara (GO) com suspensão total mantida
- Processo administrativo aberto, com novas denúncias ainda sendo apuradas
O que fica de lição
Pra quem cria cavalo, esse caso é um daqueles que dói duas vezes: primeiro pela perda do animal, muitas vezes de alto valor genético ou afetivo, depois pela demora em identificar a causa. O Mapa chama o episódio de inédito, e não é força de expressão: contaminação por alcaloide pirrolizidínico em ração industrializada não é algo que a defesa agropecuária brasileira costumava monitorar de rotina. Vale o alerta pra quem compra ração pronta: acompanhar o lote, guardar nota fiscal e, principalmente, observar o animal nas primeiras semanas depois de trocar de fornecedor. Esse tipo de intoxicação não dá sintoma imediato, e quando aparece, geralmente já é tarde.


