Um grupo de pesquisadores da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) acaba de publicar, na revista Pesquisa Agropecuária Brasileira, o primeiro estudo brasileiro que descreve com detalhe a composição do leite de coelhas da raça Nova Zelândia Branca. Parece um detalhe pequeno para quem está de fora, mas para quem cria coelhos no Brasil é exatamente o tipo de informação que faltava.

O motivo é simples: quando uma coelha morre ou rejeita a ninhada, ou quando uma ninhada é grande demais para ela amamentar todos os filhotes, não existe no mercado brasileiro um substituto de leite formulado para a espécie. Produtores improvisam com leite de vaca, leite em pó para cães e gatos, ou fórmulas importadas caras. O resultado, na maioria das vezes, é mortalidade alta nas primeiras semanas de vida.
Como os pesquisadores conseguiram ordenhar as coelhas
Ordenhar uma coelha não é como ordenhar uma vaca ou uma cabra. A equipe liderada por Silvio Mayke Leite desenvolveu um protocolo específico: aplicação de oxitocina na dose de 0,01 mL por quilo de peso vivo, com um reforço de 0,005 mL/kg dez minutos depois, separação da cria por cerca de 24 horas antes da coleta e um estímulo rápido de amamentação (cerca de um minuto) para ativar a ejeção do leite. A extração em si foi feita com uma bomba elétrica adaptada de galão de água, complementada por massagem manual nos tetos.

Funcionou. Em cinco fêmeas multíparas, a equipe coletou amostras no 1º, 7º, 14º, 21º e 28º dia de lactação. Num segundo experimento, compararam o leite de 23 coelhas no pico de lactação com leite de cabra Saanen e leite de vaca UHT.
O que tem dentro desse leite
Os números explicam por que leite de vaca é um substituto ruim. Em média, o leite de coelha apresentou:
- 28,80% de sólidos totais
- 14,44% de gordura (sobre os sólidos totais)
- 10,77% de proteína bruta
- 1.694,22 kcal por litro de energia
- 1,92% de cinzas
Segundo o resumo do trabalho, isso representa cerca de três a quatro vezes mais gordura e proteína do que o leite de vaca ou de cabra, e aproximadamente metade da lactose. Faz sentido biologicamente: coelhas amamentam a ninhada só uma ou duas vezes por dia, então o leite precisa ser extremamente concentrado para sustentar o crescimento dos filhotes nesse intervalo curto.
Os pesquisadores também notaram que a energia do leite cai de forma linear ao longo da lactação, enquanto o teor de cinzas segue um padrão quadrático, subindo e depois descendo. Detalhe que importa para quem for formular uma fórmula substituta e precisar ajustar a receita conforme a idade da ninhada.
Por que isso importa para pequenos produtores
O artigo é claro sobre o objetivo prático: dar suporte a pequenos e médios cunicultores, que são a maioria no setor, oferecendo uma base científica para formular leites substitutos de verdade, em vez de improvisar. A sobrevivência de filhotes órfãos ou de ninhadas numerosas é um dos principais pontos de perda econômica na cunicultura brasileira, um setor que já vem crescendo nas exportações de carne de coelho nos últimos anos.

Os próprios autores reconhecem limitações: o segundo experimento teve só análise descritiva, sem testes estatísticos mais robustos, e nem todas as 23 fêmeas tiveram todas as medições completas. Ainda assim, é a primeira vez que alguém documenta essa composição em condições brasileiras, com animais e manejo daqui, e isso já é um ponto de partida que a cunicultura nacional não tinha.