Em Senhor do Bonfim, no sertão baiano, o quilo do cordeiro vivo saiu de uma faixa de R$ 12 a R$ 14 para R$ 24 em poucos anos. Quem conta essa história é Luiz Teixeira, da Buriá Dorper, um dos criadores que ajudou a popularizar a raça sul-africana Dorper na ovinocultura de corte brasileira. Não é um caso isolado de valorização regional, é reflexo de uma mudança real no apetite do mercado por um cordeiro que cresce mais rápido e rende mais carne por animal abatido.

Por que a Dorper ganhou espaço na ovinocultura de corte
A raça Dorper chegou ao Brasil como alternativa para quem busca um cordeiro de corte com ganho de peso rápido e boa conformação de carcaça, sem depender de lã, já que a raça não precisa de tosquia. Isso reduz custo de manejo e facilita a adaptação ao clima quente de boa parte do território nacional, especialmente no semiárido nordestino, onde a demanda por genética mais produtiva vinha crescendo havia anos.
Um sinal forte dessa demanda apareceu em abril de 2020, quando o leilão da Kaiowas Dorper, em Itapetininga, interior de São Paulo, vendeu 100% dos lotes ofertados. Liquidez total em um leilão de genética não é comum, e mostra que compradores de diferentes regiões do país estavam dispostos a investir em reprodutores da raça mesmo em um ano de incertezas econômicas.
O fator sanitário que mudou o jogo
Parte da valorização da genética Dorper no Brasil também tem explicação sanitária. Depois de uma mudança nas regras de importação de genética entre o Brasil e a África do Sul, país de origem da raça, as importações de material genético Dorper caíram, segundo dados levantados pelo CompreRural referentes a 2020. Com menos acesso a sêmen e embriões importados, criadores brasileiros passaram a valorizar mais os plantéis já estabelecidos no país, pressionando o preço dos reprodutores para cima.
- Preço do cordeiro vivo em alta em regiões tradicionalmente produtoras, caso de Senhor do Bonfim, na Bahia;
- Leilões de reprodutores com liquidez de 100%, caso do leilão da Kaiowas Dorper em Itapetininga;
- Barreira sanitária mais rígida para importação de genética Dorper da África do Sul, reduzindo a oferta externa;
- Criadores nacionais ganhando relevância como fonte de genética de qualidade dentro do próprio país.

O que isso significa para quem está entrando na atividade
Para quem pensa em investir em ovinocultura de corte, o caso da Dorper no Brasil mostra um padrão que vale a pena observar: raças que entregam ganho de peso consistente e carcaça de qualidade tendem a sustentar valorização mesmo em cenários de instabilidade de mercado, porque o comprador final, o frigorífico e o consumidor de carne ovina, está disposto a pagar mais por um produto final melhor.
Isso não significa que todo criador deva trocar de raça da noite para o dia. Significa que vale acompanhar de perto como o mercado remunera diferentes genéticas na sua região antes de decidir onde investir o próximo ciclo de reprodução do rebanho.
