Em um levantamento na Região Metropolitana de Salvador, quase a metade dos caprinos testados, 48,8% para ser exato, deu positivo para artrite-encefalite caprina. É um número que assusta qualquer criador, principalmente porque essa doença não tem cura e, até hoje, não existe vacina comercial realmente eficaz contra ela.
O que é a CAE e por que ela é tão difícil de controlar
A artrite-encefalite caprina viral, ou CAE, é causada por um lentivírus da família Retroviridae, a mesma categoria de vírus que inclui o vírus da maedi-visna em ovinos. A doença evolui de forma crônica, com incubação que pode durar meses ou anos antes dos primeiros sinais aparecerem. Segundo dados reunidos pela Embrapa Caprinos e Ovinos, apenas cerca de 35% dos animais infectados chegam a mostrar sinais clínicos, o que torna a infecção praticamente invisível a olho nu na maior parte do rebanho.

Como a doença se espalha dentro da propriedade
A principal via de transmissão, de acordo com a Embrapa, é o colostro e o leite da mãe infectada para a cria. Depois vem o contato direto no parto, a lambedura, a monta natural e o contato prolongado com sangue, saliva e secreções respiratórias em ambientes mal ventilados. Existe ainda a transmissão indireta, por meio de agulhas, instrumentos de tatuagem ou descorna e ordenhadeiras mal higienizadas, compartilhados entre animais sem cuidado nenhum. A boa notícia, dentro de tanta má notícia, é que a CAE não passa para humanos: carne e leite de animais positivos podem ser consumidos, desde que o animal não esteja muito magro nem febril.
A prevalência varia, e muito, de raça para região
Um estudo na Bahia, feito em sistema de criação intensiva, encontrou prevalências bem diferentes entre raças dentro do mesmo rebanho: 3,06% em animais sem padrão racial definido, contra 18,92% em Saanen, 16,06% em Pardo Alpino e 15,76% em Anglonubiano. Em Pernambuco, outro levantamento encontrou 17,6% de soroprevalência, com cerca de metade das propriedades examinadas apresentando pelo menos um animal positivo. No Ceará, um estudo mais antigo encontrou apenas 0,1% em caprinos mestiços. A conclusão prática é direta: sistema de criação intensivo, com animais de maior valor genético e mais contato entre eles, tende a favorecer a circulação do vírus.

O que a Embrapa recomenda para controlar o problema
Sem cura e sem vacina confiável, o controle da CAE depende inteiramente de manejo. As recomendações da Embrapa Caprinos e Ovinos incluem:
- Testar sorologicamente todos os animais com mais de seis meses, pelo menos uma vez ao ano.
- Separar as crias da mãe logo depois do parto e alojá-las longe dos animais infectados.
- Alimentar as crias com colostro de cabras negativas, aquecido a 56°C por uma hora, ou com colostro artificial, nas primeiras 48 horas de vida.
- Usar uma agulha para cada animal e higienizar bem a ordenhadeira entre usos.
- Não misturar caprinos e ovinos no mesmo lote, pelo risco de transmissão cruzada com a maedi-visna.
- Em rebanhos com prevalência acima de 40%, repetir o teste sorológico a cada seis meses para separar os positivos com mais rapidez.
Animais soropositivos de boa genética ainda podem ser usados na reprodução em alguns casos, desde que as crias sejam isoladas e recebam colostro tratado. Mas, sempre que possível, a recomendação técnica é abater os positivos, porque é esse o único caminho real para erradicar a doença de um rebanho.

Vale a pena testar antes de comprar
Se tem um conselho que sai direto dessa pesquisa, é este: nunca compre caprino sem exigir pelo menos três testes sorológicos negativos para CAE. O vírus já está disseminado em rebanhos de vários estados do Nordeste, segundo a própria Embrapa, e a comparação entre 0,1% no Ceará e 48,8% na Grande Salvador mostra como a diferença entre um sistema de biosseguridade frouxo e um rigoroso pode ser gigantesca.