Em 1978, suínos de criação de subsistência em Paracambi, no Rio de Janeiro, começaram a morrer sem explicação aparente. A investigação chegou a uma causa quase absurda, se não fosse tão grave: restos de comida de um avião vindo de Portugal foram jogados perto de uma granja e usados para alimentar os animais. Ali estava o vírus da peste suína africana, entrando no Brasil pela primeira e, até hoje, única vez.
Como a doença chegou e como foi eliminada
O surto se espalhou por municípios do Rio de Janeiro e depois apareceu em outros estados. O Brasil levou seis anos para dar a doença como eliminada: a campanha de erradicação durou de 1978 a 1984, com abate sanitário dos rebanhos infectados e expostos, como reconstrói o historiador Francisco Cecílio Viana em sua tese sobre o episódio, defendida na UFMG. Desde então o país é reconhecido como livre da peste suína africana e trata a doença como exótica, ou seja, algo que não deveria estar aqui e que precisa ser impedido de voltar.

Por que não existe vacina nem cura
Aqui está o detalhe que assusta qualquer veterinário de suínos: não existe vacina comercial contra a peste suína africana em lugar nenhum do mundo. A Embrapa Suínos e Aves lista testes promissores de uma vacina oral para javalis sendo conduzidos na Espanha, mas nada disponível para uso comercial até agora. Sem vacina e sem tratamento, a única resposta possível diante de um foco é o abate sanitário do rebanho infectado e exposto. Não existe meio termo.
A doença voltou a preocupar as Américas
Depois de décadas sem nenhum caso no continente americano, a peste suína africana reapareceu na República Dominicana e no Haiti em 2021, reacendendo o temor de uma nova onda na região, segundo reportagens da época publicadas pela Forbes Brasil. Para quem cria porcos no Brasil, essa é o tipo de notícia que deveria acender um alerta, porque mostra que a doença viaja, e viaja rápido, sempre que a biosseguridade falha em algum ponto da cadeia.

Como o Brasil se protege hoje
A estrutura de vigilância brasileira não depende só de boa vontade. Ela está organizada dentro do Programa Nacional de Sanidade Suídea (PNSS), do Mapa, que inclui a peste suína africana como diagnóstico diferencial em qualquer síndrome hemorrágica notificada em suínos. O laboratório oficial para confirmar ou descartar a doença é o Lanagro, em Minas Gerais. Na prática, isso significa:
- Qualquer morte súbita ou sinal hemorrágico em suínos deve ser comunicado imediatamente à Agência Estadual de Defesa Agropecuária ou ao Departamento de Saúde Animal do Mapa.
- Importações de países com peste suína africana ativa ficam restritas.
- Caçadores que estiveram em áreas afetadas no exterior não podem trazer subprodutos da caça para o Brasil.
- Produtores e veterinários recebem capacitação continuada para reconhecer os sinais da doença e aplicar biosseguridade rigorosa nas granjas.
Suínos asselvajados, os javalis e seus cruzamentos, hoje estão distribuídos em mais de 14 estados brasileiros, o que complica ainda mais o cenário. Na Europa, o ciclo javali-habitat já é um dos grandes motores de manutenção da doença no ambiente. Aqui, a Embrapa Suínos e Aves monitora essas populações dentro da zona livre de peste suína clássica, mas o recado é o mesmo: contato entre javali e suíno doméstico é risco, e resto de comida acessível a eles é exatamente o tipo de falha que abriu a porta em 1978.

A lição que fica
Mais de quatro décadas depois de Paracambi, a lição continua a mesma: a peste suína africana não precisa de fronteira aberta para entrar, só precisa de um descuido. Resto de comida mal descartado, javali que cruza a cerca, caçador que traz um troféu de viagem. O Brasil nunca teve um segundo surto porque a vigilância não relaxou depois do primeiro. É esse tipo de atenção, chata e constante, que mantém a suinocultura brasileira livre de uma doença que, em outros países, já quebrou cadeias produtivas inteiras.