Em 2019, a população de micos-leões-dourados na natureza era estimada em cerca de 2,5 mil indivíduos. Hoje, segundo a Associação Mico-Leão-Dourado (AMLD), esse número já passa de 4,8 mil. Em menos de uma década, a espécie símbolo da Mata Atlântica fluminense quase dobrou de tamanho, numa recuperação que poucos projetos de conservação no mundo conseguem mostrar com dados tão claros.

Uma espécie que já esteve à beira do fim
O mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia) é endêmico de fragmentos de Mata Atlântica no Rio de Janeiro, principalmente na região de Silva Jardim e no entorno da Reserva Biológica de Poço das Antas. Na década de 1970, a destruição do habitat e a caça para o comércio de animais de estimação reduziram a população a níveis tão baixos que a espécie chegou a ser considerada uma das mais ameaçadas de extinção do planeta.
A virada começou com décadas de trabalho da AMLD, criada em 1992, que uniu reintrodução de animais nascidos em cativeiro, corredores ecológicos ligando fragmentos de mata e parceria direta com proprietários rurais da região para proteger e restaurar vegetação nativa.

O susto da febre amarela em 2017
A trajetória de recuperação não foi uma linha reta. Em 2017, um surto de febre amarela silvestre varreu a região e reduziu a população de micos-leões-dourados em cerca de 32%, segundo estimativas da própria AMLD. Primatas são extremamente vulneráveis ao vírus, e a doença matou tanto animais na natureza quanto indivíduos sob monitoramento.
A resposta veio com um programa de vacinação de micos contra febre amarela, uma iniciativa pouco comum fora do contexto de saúde humana, combinada com reforço do monitoramento populacional. O resultado dos anos seguintes, com a população saltando de 2,5 mil para mais de 4,8 mil indivíduos, mostra que a estratégia funcionou.
Por que esse número importa para além da espécie
O mico-leão-dourado funciona como indicador da saúde da Mata Atlântica fluminense. Proteger seu habitat significa proteger nascentes de rios, estoque de carbono e outras espécies que compartilham o mesmo fragmento de floresta, de aves a pequenos felinos.

O caso também serve de modelo para outros programas de conservação no Brasil. Mostra que populações relativamente pequenas e isoladas podem se recuperar quando existe financiamento de longo prazo, monitoramento constante e, principalmente, parceria com quem vive e trabalha na terra onde a espécie sobrevive. O desafio agora é outro: garantir que o crescimento continue sem que a floresta disponível se torne o novo fator limitante.