Tem uma estatística que surpreende até gente que trabalha com produção animal: o Brasil está entre os maiores produtores mundiais de tilápia, atrás apenas da China. Isso aconteceu em menos de duas décadas, puxado quase inteiramente por uma espécie que nem é nativa daqui. A tilápia chegou da África, encontrou nos reservatórios de hidrelétricas brasileiras um ambiente perfeito para crescer rápido, e virou o motor da aquicultura nacional.

Por que os reservatórios de hidrelétricas viraram o berço da tilapicultura
Grande parte da produção comercial acontece em tanques-rede instalados dentro de grandes represas, como as de Minas Gerais, São Paulo e do Nordeste. A lógica é simples: a hidrelétrica já precisa manter o nível e a qualidade da água controlados, o espelho d’água é gigantesco e os peixes ficam confinados em estruturas flutuantes de malha, recebendo ração e sendo despescados sem que o produtor precise construir um único viveiro escavado. É basicamente aproveitar uma infraestrutura que já existia para outro fim.

O que fez a tilápia vencer tantas outras espécies nativas
Peixes nativos como pintado, tambaqui e pirarucu também são criados no Brasil, mas nenhum chegou perto do volume da tilápia, e a explicação não é só biológica. A tilápia cresce rápido, tolera bem variações de manejo, aceita ração peletizada sem complicação e, principalmente, já tem uma cadeia frigorífica e de distribuição madura, com filé padronizado que o supermercado sabe vender e o consumidor já reconhece na gôndola. Tambaqui e pirarucu crescem em nichos regionais fortes, sobretudo no Norte, mas competem contra uma espécie que resolveu o problema logístico décadas antes.
Some a isso o trabalho de melhoramento genético feito sobre a espécie, incluindo linhagens selecionadas especificamente para crescimento em cativeiro, e o resultado é um peixe que praticamente foi desenhado para produção intensiva em escala.

O ponto que ainda preocupa pesquisadores e órgãos ambientais
Nem tudo é vantagem. Concentrar milhares de tanques-rede num mesmo reservatório pode sobrecarregar a capacidade de assimilação da água, elevando nutrientes e comprometendo a qualidade do corpo hídrico se o licenciamento e o monitoramento não acompanharem o ritmo de expansão da atividade. Pesquisadores da Embrapa Pesca e Aquicultura, em Palmas, no Tocantins, vêm estudando justamente a capacidade de suporte de reservatórios brasileiros para piscicultura em tanques-rede, tentando estabelecer limites técnicos que permitam a produção crescer sem comprometer o uso múltiplo da água por outras atividades, como abastecimento humano e geração de energia. É um equilíbrio que o setor ainda está aprendendo a administrar, represa por represa.