Seleção Genômica em Bovinos de Corte: O Futuro Já Chegou

Até pouco tempo atrás, escolher um touro para reprodução dependia quase inteiramente do que se via a olho nu no rodeio de avaliação ou do desempenho médio das crias já nascidas. Hoje um laboratório consegue prever, com base numa amostra de pelo ou sangue, como aquele animal provavelmente vai transmitir características de crescimento, acabamento de carcaça e até fertilidade para a próxima geração. Essa é a seleção genômica, e ela já mudou a velocidade com que a pecuária de corte brasileira consegue melhorar seus rebanhos.

Bovino de corte usado em programa de seleção genômica

Por que esperar a cria crescer, se dá para saber antes

Fernando Baldi, professor da UNESP de Jaboticabal e uma das referências brasileiras em melhoramento genético animal, tem se dedicado a estudar como integrar informações genômicas às avaliações genéticas tradicionais em bovinos de corte, especialmente na raça Nelore, que domina o rebanho nacional. O ganho prático dessa integração é direto: um touro jovem, que normalmente levaria anos para acumular progênie suficiente e gerar uma DEP (Diferença Esperada na Progênie) confiável, pode ter seu valor genético estimado com muito mais precisão logo nos primeiros meses de vida, a partir do genótipo.

Isso reduz o chamado intervalo de gerações, que é basicamente o tempo entre o nascimento de um animal e o nascimento de sua progênie selecionada. Quanto menor esse intervalo, mais rápido o rebanho responde à seleção, e é exatamente aí que está o ganho econômico real da genômica: não é só precisão, é velocidade de resposta.

Rebanho de bovinos de corte em pastagem brasileira

O que muda na prática para quem cria gado

Para o produtor comum, que não trabalha com núcleos de elite de melhoramento, o efeito chega de forma indireta: os touros e sêmens disponíveis no mercado hoje carregam DEPs cada vez mais confiáveis, porque grande parte das centrais de inseminação artificial já usa genotipagem em seus reprodutores. Isso significa comprar sêmen com mais segurança sobre o que aquele touro realmente vai entregar em peso ao desmame, ganho de peso pós-desmame, perímetro escrotal e características de carcaça.

Vale lembrar que DEP não é uma nota de qualidade do animal isoladamente. É uma estimativa de quanto daquele valor ele transmite geneticamente para a progênie, em comparação com a média da raça. Um touro pode ser fenotipicamente mediano e ainda assim ter DEPs excelentes, porque ele carrega genes valiosos que nem sempre se expressam totalmente nele mesmo.

Bovino de raça zebuína usado em avaliação genética

O limite da tecnologia (porque ela tem limite)

A genômica não substitui manejo. Um touro com genética excelente colocado num sistema de nutrição deficiente ou sanidade precária não vai expressar esse potencial, e o produtor acaba achando que “a genética não funcionou”, quando na verdade o problema estava no ambiente de produção. Baldi e outros pesquisadores da área costumam reforçar esse ponto em capacitações técnicas: seleção genética e manejo ambiental caminham juntos, um não compensa a ausência do outro.

De qualquer forma, o Brasil, sendo o maior exportador mundial de carne bovina, tem todo interesse em acelerar esse processo. Cada ganho genético que se traduz em mais quilos de carne por hectare, com menos tempo de confinamento ou pastagem, é ganho direto de eficiência num sistema produtivo que já é referência mundial em produção a pasto.

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