Búfalos na Amazônia: Produção de Leite e Queijo na Ilha de Marajó

Tem uma cena que resume bem a Ilha de Marajó, no Pará: búfalos andando pelas ruas de Soure como se fossem parte do trânsito normal da cidade, porque na prática são. A ilha, maior área de deposição sedimentar de água doce do mundo, virou o maior polo de criação de búfalos do Brasil, e não por acaso. É um dos poucos animais domésticos de grande porte que se adapta bem ao regime de cheias e secas que marca o calendário natural da região amazônica.

Búfalo em fazenda de bubalinocultura

Por que o búfalo e não o boi

José de Brito Lourenço Júnior, pesquisador que dedicou décadas da carreira na Embrapa Amazônia Oriental ao estudo da bubalinocultura regional, ajudou a consolidar o entendimento técnico de por que essa espécie funciona tão bem no ambiente amazônico onde o gado bovino comum sofre. O búfalo tem casco mais largo, o que distribui melhor o peso do corpo em solo encharcado, e tolera bem áreas de várzea que ficam parcialmente submersas boa parte do ano. Simplesmente não dá para colocar um lote grande de bovinos convencionais nesse tipo de terreno sem enfrentar problemas sérios de casco e locomoção.

Além disso, o leite de búfala tem teor de gordura e proteína bem superior ao leite de vaca, o que naturalmente direciona boa parte da produção regional para um destino específico: queijo.

Búfalo adaptado a ambiente de várzea, típico da criação na Amazônia

O queijo do Marajó que virou identidade regional

O queijo de búfala produzido na ilha, muitas vezes vendido fresco em pequenas queijarias familiares, tem uma textura mais firme e um sabor mais encorpado do que o queijo equivalente feito com leite bovino, justamente por causa do maior teor de sólidos totais. Essa característica virou parte da identidade gastronômica do Pará, presente em pratos tradicionais e vendida como produto regional para visitantes que passam pela ilha.

O problema histórico dessa cadeia sempre foi a informalidade. Grande parte da produção ainda acontece em pequena escala, sem processamento padronizado, o que limita a capacidade de escoar o produto para mercados maiores fora do estado. Iniciativas de certificação de origem, como as que já existem para outros produtos regionais brasileiros, poderiam ajudar a proteger e valorizar esse queijo especificamente.

Grupo de búfalos jovens em ambiente próximo à água

Uma criação que depende do ritmo do rio

O manejo do rebanho bubalino no Marajó segue um calendário ditado pelas cheias. Na época de água alta, parte do rebanho é deslocada para áreas mais firmes ou até para currais suspensos, chamados de mangueirões, uma solução de engenharia rural bem específica dessa região. Isso exige planejamento de pastagem completamente diferente do praticado no restante do país, onde a lógica de rotação de pastos segue outra dinâmica.

É esse tipo de conhecimento acumulado ao longo de gerações, combinado com pesquisa técnica de instituições como a Embrapa, que sustenta uma atividade que parece simples de fora mas carrega uma engenharia própria de adaptação ao ambiente. E que segue sendo, junto com o açaí e o turismo, um dos pilares econômicos da Ilha de Marajó.

Deixe uma resposta

Compartilhar

Share on facebook
Facebook
Share on linkedin
LinkedIn
Share on telegram
Telegram
Share on whatsapp
WhatsApp

TAMBÉM QUER SEU ANÚNCIO AQUI? ENTRE EM CONTATO

Translate »