Mais de oitenta por cento do rebanho de corte brasileiro tem sangue Nelore em algum grau. Não é acidente nem tradição vazia: é o resultado de um pacote de características que a raça foi acumulando desde que chegou da Índia no final do século dezenove. Aqui vão sete curiosidades que explicam por que esse zebuíno de orelhas caídas virou sinônimo de pecuária tropical.

1. A cupa não é só estética
Aquela giba nas costas do Nelore concentra tecido adiposo e muscular que funciona como reserva de energia, mas seu papel na termorregulação é o que mais chama atenção de pesquisadores. Ela ajuda a reduzir a área de superfície exposta diretamente ao sol do meio-dia, uma vantagem que bovinos europeus simplesmente não têm.
2. A pele solta é uma tecnologia de resfriamento
O Nelore tem mais glândulas sudoríparas por centímetro quadrado de pele do que raças taurinas, e a pele mais solta e pigmentada aumenta a área disponível para dissipar calor por evaporação. Pesquisas de fisiologia animal já demonstraram que essa combinação permite que o zebuíno mantenha a temperatura corporal estável mesmo em dias de calor extremo, quando um Angus ou Hereford já estaria em sofrimento térmico.

3. Resistência ao carrapato não é lenda de fazenda
A pesquisa em genética bovina conduzida por grupos ligados à USP e à Embrapa Pecuária Sudeste já mapeou regiões do genoma Nelore associadas à resistência ao carrapato Rhipicephalus microplus, um dos maiores vilões sanitários da pecuária tropical. Não é imunidade total, mas a carga parasitária costuma ser visivelmente menor do que em animais taurinos criados na mesma pastagem.
4. O programa de melhoramento genético é um dos maiores do mundo
O DNA Nelore, programa de avaliação genética coordenado pela Associação Nacional de Criadores e Pesquisadores, acompanha centenas de milhares de animais e já se tornou uma das maiores bases de dados de melhoramento zebuíno do planeta. Pesquisadores como os ligados ao Departamento de Zootecnia da USP em Pirassununga usam esses dados para calcular DEPs de características que vão de peso ao desmame a características de carcaça.

5. Ele aproveita forragem de pior qualidade melhor que raças europeias
O rúmen do zebuíno tende a reter o alimento por mais tempo, o que melhora o aproveitamento de forragens fibrosas e de baixa qualidade, comuns em pastagens tropicais na época seca. Essa eficiência digestiva é uma das razões pelas quais o Nelore domina justamente as regiões onde o capim perde valor nutritivo boa parte do ano.
6. Cruzamentos industriais usam o Nelore como base, não como coadjuvante
Sistemas de cruzamento como o Nelore com Angus, que geram o chamado Brangus ou simplesmente animais cruzados de terminação, colocam o zebuíno como a base materna justamente pela rusticidade e fertilidade em condições tropicais, somando depois o ganho de peso e o marmoreio típico das raças britânicas. Não é que o Nelore precise de ajuda, é que a genética combinada aproveita o melhor dos dois mundos.
7. O Brasil tem o maior rebanho comercial da raça no mundo, de longe
Nenhum outro país criou tantos Nelores em escala comercial quanto o Brasil, a ponto de a raça, originalmente indiana, ser hoje mais associada à pecuária brasileira do que à sua terra de origem. É um caso raro de uma raça importada se tornando, na prática, a espinha dorsal genética de todo um setor produtivo nacional.