Enquanto boa parte do mundo cultiva tilápia, uma espécie exótica introduzida na maioria dos países onde é criada, o Brasil tem debaixo do próprio rio uma vantagem que poucos países possuem: uma bacia amazônica com centenas de espécies nativas já adaptadas ao clima, à água e às doenças locais. A aquicultura nacional está, aos poucos, redescobrindo esse patrimônio.

Tambaqui: o carro-chefe que já dominou o mercado interno
Rodrigo Roubach, pesquisador da Embrapa Pesca e Aquicultura em Palmas, Tocantins, e uma das vozes mais consultadas sobre aquicultura brasileira, costuma destacar que o tambaqui já é hoje a espécie nativa mais cultivada do país, presente em praticamente todos os estados. É um peixe onívoro, cresce rápido em tanques-rede e em viveiros escavados, e tolera bem oscilações de oxigênio dissolvido que matariam espécies mais sensíveis, uma vantagem e tanto em regiões onde a energia para aeração é cara ou instável.
Pintado e a força dos híbridos
O pintado, um bagre de couro sem escamas, ganhou força comercial principalmente através do cruzamento com o cachara, gerando o chamado cachapinta, que reúne o crescimento acelerado de um lado com a resistência a manejo do outro. A carne sem espinhas e o filé firme fizeram desse peixe um queridinho de churrascarias e restaurantes, com preço bem acima da tilápia no varejo, o que ajuda a sustentar a viabilidade econômica de produtores especializados.

Pirarucu: o gigante que virou símbolo de manejo sustentável
Poucos peixes de água doce chegam perto do pirarucu em tamanho, alguns exemplares ultrapassam dois metros de comprimento, e ainda assim ele respira ar atmosférico através de uma bexiga natatória modificada, um traço que fascina biólogos e que também facilita o manejo em cativeiro, já que o produtor consegue observar o comportamento do peixe vindo à superfície. Na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no Amazonas, o manejo comunitário do pirarucu selvagem se tornou referência internacional de uso sustentável de um recurso pesqueiro, e a criação em cativeiro segue esse mesmo caminho de valorização da espécie nativa.
O desafio ainda é escalar
Apesar do potencial, produzir alevinos de espécies nativas em escala continua sendo um gargalo. A reprodução induzida por hormônio, necessária porque muitas dessas espécies não desovam espontaneamente em cativeiro, exige know-how técnico que nem todo produtor tem acesso fácil. Centros de pesquisa como a própria Embrapa Pesca e Aquicultura têm investido em protocolos reprodutivos mais simples e baratos, tentando reduzir essa barreira para que mais produtores consigam entrar na cadeia de peixes nativos sem depender de importação de alevinos de outras regiões.

O caminho da aquicultura nacional passa, cada vez mais, por essas espécies que sempre estiveram aqui. Não é sobre abandonar o que já funciona, mas sobre reconhecer que o Brasil tem debaixo d’água uma biodiversidade que poucos países conseguem igualar, e que ainda está longe de ser totalmente aproveitada.