O transporte é reconhecido pela cadeia pecuária como um dos momentos de maior estresse na vida de um bovino — e também um dos que mais geram prejuízo evitável, na forma de contusões na carcaça, perda de peso e, em casos extremos, morte no trajeto. A boa notícia é que boa parte dessas perdas tem causa conhecida e solução relativamente simples de aplicar.
O que a legislação já exige
A Instrução Normativa nº 113 do MAPA estabelece regras específicas para o transporte de animais vivos no Brasil, incluindo densidade máxima de carga por veículo, tempo máximo de viagem sem descanso e condições mínimas do caminhão (piso antiderrapante, ventilação, proteção lateral). O descumprimento não é só um risco de bem-estar — é passível de autuação e pode comprometer a qualidade da carcaça entregue ao frigorífico.
Densidade de carga: o erro mais caro
Excesso de animais por metro quadrado é a causa mais comum de contusões e brigas durante o transporte — os animais não conseguem se reequilibrar nas curvas e frenagens, e acabam se chocando ou pisoteando uns aos outros. Por outro lado, densidade baixa demais também não é ideal: sem contato mínimo entre os corpos, os animais perdem apoio e se desequilibram mais facilmente. Existe uma faixa ótima, calculada por peso vivo e área do veículo, que minimiza os dois riscos.
O manejo pré-embarque importa tanto quanto a viagem
Jejum de sólidos controlado (geralmente entre 12 e 16 horas antes do embarque) reduz o volume de conteúdo ruminal e o risco de problemas digestivos na viagem, sem comprometer o bem-estar quando bem dimensionado. O embarque em si deve ser feito com rampas de ângulo suave, sem uso de ferrões elétricos, e respeitando o comportamento natural de manada — bovinos se movem melhor em grupo do que isolados, e reagem mal a mudanças bruscas de luz e sombra na rampa.
O retorno econômico do transporte bem-feito
Carcaças com hematomas geram desconto direto no preço pago pelo frigorífico, além do descarte de partes contundidas. Animais que chegam mais estressados também apresentam maior incidência de carne DFD (escura, dura e seca), que perde valor comercial. Investir em manejo pré-embarque e em veículos adequados não é custo — é a forma mais direta de proteger o valor do animal até a última etapa antes do abate.