Carrapato do Boi Está Vencendo os Acaricidas, Alerta a Embrapa

Tem produtor que aplica o mesmo acaricida há anos, sempre na mesma dose, e começa a notar uma coisa estranha: o carrapato continua lá. Não é impressão. A Embrapa Gado de Corte, em Campo Grande (MS), vem documentando há tempos populações de Rhipicephalus microplus, o carrapato do boi, que simplesmente deixaram de responder aos principais grupos químicos usados no campo, dos piretroides aos organofosforados. O parasita não ficou mais forte do agro nada, ele só aprendeu a sobreviver ao que deveria matá-lo.

Bovinos em pastagem relacionados ao controle de carrapatos na pecuária

Como o carrapato aprendeu a sobreviver ao banho

Resistência a acaricida não surge do nada. Toda vez que um banho ou pour-on é aplicado, uma fração mínima da população de carrapatos sobrevive por acaso, geralmente porque carrega alguma mutação genética que torna aquele produto menos letal. O problema é que, se o manejo repete o mesmo princípio ativo geração após geração sem alternar o modo de ação, são justamente esses sobreviventes que seguem se reproduzindo. Com o tempo, a população inteira do pasto passa a carregar aquela mutação, e o produto que funcionava bem há cinco anos vira, na prática, um banho de água com cheiro de química.

O que preocupa pesquisadores da área é a velocidade desse processo em propriedades que usam o mesmo acaricida de forma contínua, sem rotação de princípio ativo nem intervalo de descanso químico. Em algumas regiões do Brasil já existem relatos de populações resistentes a praticamente todos os grupos disponíveis no mercado, o que empurra o produtor para associações de produtos cada vez mais caras e, em alguns casos, para doses fora da bula só para conseguir algum efeito.

Rebanho bovino pastando em área extensa de pecuária brasileira

O custo que não aparece na nota fiscal do acaricida

O carrapato do boi não é só um incômodo estético no couro do animal. Ele é vetor de doenças que compõem o complexo conhecido como tristeza parasitária bovina, capaz de matar animais jovens e debilitar adultos, além de depreciar o couro para a indústria de curtume. Quando o acaricida para de funcionar, o produtor aplica mais vezes, gasta mais mão de obra de contenção, e ainda assim vê o rebanho perder peso e produtividade por causa da infestação persistente. É um prejuízo que se acumula silenciosamente até que alguém finalmente calcula quanto dinheiro foi gasto em produto que não resolveu nada.

Paisagem rural com gado representando manejo sanitário bovino

O que a pesquisa recomenda fazer diferente

A saída recomendada por pesquisadores não é um produto milagroso novo, é mudança de estratégia. Rotacionar os princípios ativos entre grupos químicos diferentes ao longo do ano, respeitar rigorosamente a dose indicada em bula, e sobretudo testar a eficácia do produto no próprio rebanho antes de comprar em grande volume são passos que reduzem a velocidade com que a resistência se instala. Outra frente que ganha espaço é o manejo integrado: pastejo rotacionado que reduz a exposição do gado às larvas no pasto, e seleção de animais com maior resistência natural ao carrapato dentro do próprio rebanho, algo que programas de melhoramento genético já incorporam como critério. Carrapato resistente não é uma sentença definitiva, mas ignorar o problema custa caro, e o tempo para agir é antes que a eficácia do produto que ainda funciona na sua fazenda caia para zero.

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