Capivaras nas Cidades: Por Que Esse Roedor Gigante Está Cada Vez Mais Próximo dos Centros Urbanos

Quem mora perto de represas, parques ou condomínios com área verde em várias cidades brasileiras já se deparou com a cena: um grupo de bichos marrons e tranquilos pastando na grama como se fossem parte do paisagismo. São as capivaras, e elas estão deixando de ser exclusividade do campo para se tornar presença cada vez mais comum no cotidiano urbano.

Capivara em área protegida próxima a reservatório urbano

O maior roedor do mundo é brasileiro

A capivara, Hydrochoerus hydrochaeris, é o maior roedor vivo do planeta, podendo passar dos 50 quilos em exemplares adultos. É um animal semiaquático por natureza: passa boa parte do dia próximo a rios, lagos e represas, nada com facilidade e usa a água tanto para se refrescar quanto para escapar de predadores. Essa dependência de corpos d’água é justamente o que explica sua presença cada vez mais visível em reservatórios dentro de áreas urbanas, como o caso já bem documentado da represa de Guarapiranga, em São Paulo.

O biólogo José Roberto Moreira, pesquisador que dedicou boa parte da carreira ao estudo da espécie e é um dos organizadores do livro de referência sobre biologia e manejo de capivaras no Brasil, costuma destacar que o sucesso da espécie em ambientes alterados pelo homem não é acidente. Capivaras são extremamente flexíveis na dieta, toleram bem a proximidade humana e se reproduzem rápido quando há comida disponível e poucos predadores naturais por perto, exatamente o cenário que muitas áreas verdes urbanas oferecem.

Capivara em ambiente natural próximo a corpo de água

Por que elas estão se aproximando tanto da cidade

Três fatores ajudam a explicar o fenômeno. O primeiro é a expansão urbana sobre áreas que antes eram rurais ou de vegetação nativa, o que faz a cidade literalmente chegar até o habitat da capivara, e não o contrário. O segundo é a oferta de grama bem cuidada, irrigada e sem falta de água, um banquete permanente para um animal essencialmente herbívoro. O terceiro, menos falado, é a ausência de predadores naturais como onças e grandes felinos em ambiente urbano, o que remove praticamente todo o controle populacional natural da espécie.

O resultado é que populações de capivaras em parques e represas urbanas podem crescer de forma bem mais rápida do que cresceriam no campo aberto. Isso não é necessariamente um problema para o bem-estar do próprio animal, mas levanta questões reais de manejo: controle sanitário, risco de atropelamento em vias próximas e até mesmo a relação da espécie com a presença do carrapato-estrela, vetor da febre maculosa, tema que preocupa órgãos de saúde pública em algumas regiões.

Grupo de capivaras descansando na grama em área verde

O que fazer (e o que não fazer) ao encontrar uma capivara

A capivara é um animal silvestre nativo e, como tal, protegido por lei. Alimentar, capturar ou tentar afugentar o animal por conta própria pode configurar infração ambiental, além de alterar o comportamento natural da população local, tornando-a ainda mais dependente de comida humana. O recomendado é simplesmente manter distância, não oferecer alimento e, em caso de populações excessivas em algum parque ou condomínio, procurar o órgão ambiental responsável, que no âmbito federal é o ICMBio, para avaliação técnica da situação.

No fim das contas, a presença da capivara em ambiente urbano é um bom indicador de como fauna silvestre e expansão das cidades estão cada vez mais entrelaçadas no Brasil. Entender esse animal, em vez de simplesmente reagir a ele, é o primeiro passo para que essa convivência dê certo tanto para quem mora na cidade quanto para quem já estava ali antes dela existir.

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